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A INTERFACE COORDENAÇÃO & PARÁFRASE

 

Camilla Gabriela Nideck de Barros

(PIBIC/UFF)

 

Resumo: Com o intuito de investigar a origem e a motivação do desenvolvimento de cláusulas sintaticamente complexas e que apresentam diferentes graus de vinculação entre si, estamos analisando as cláusulas coordenadas sindéticas em seus desmembramentos – aditivas, adversativas, alternativas, explicativas e conclusivas – com vistas à formação de um continuum oracional.

Palavra-chave: Funcionalismo; parataxe; vinculação; continuum; paráfrase.

1. Introdução

 

Tomando como base o funcionalismo lingüístico americano (Hopper e Traugott, 93; Givón, 95), mais especificamente os subprincípios da iconicidade (Bolinger, 77; Haiman, 85 ; Givón, 95) e marcação (Givón, 90, 95), estamos desenvolvendo o estudo das cláusulas coordenadas sindéticas, que faz parte da pesquisa integrada – Marcação e iconicidade em construções complexas – que vem sendo elaborada pelo Grupo de Estudos Discurso & Gramática da Universidade Federal Fluminense.

Adotamos uma perspectiva empírica sincrônica – Corpus Discurso & Gramática: a língua falada e escrita na cidade de Niterói – que é uma coletânea de textos orais e escritos produzidos, em situações reais de uso, por informantes prototípicos niteroienses (19 informantes já entrevistados) na segunda metade da década de 90, para analisar as cláusulas coordenadas sindéticas – aditivas, adversativas, alternativas, explicativas e conclusivas – e assim verificar os distintos graus de vinculação semântico-sintática existente entre o período em coordenação, já que interpretamos o período coordenado sindético, em seus desmembramentos clássicos – aditivas, adversativas, alternativas, explicativas e conclusivas - como uma escala de integração oracional.

Essa coletânea reúne cinco tipologias textuais da fala e da escrita de  estudantes da fase terminal do ensino fundamental, médio e universitário. A saber: narrativa de experiência pessoal (NEP), narrativa recontada (NR), descrição de local (DL), relato de procedimento (RP) e relato de opinião (RO).

  

2.        Pressupostos teóricos

 

O princípio básico do funcionalismo é o da iconicidade. Este princípio propõe motivação na relação função<forma. Relacionam-se a iconicidade três subprincípios, associados à complexidade: quantidade, proximidade e ordenação linear.

Segundo quantidade quanto maior, mais imprevisível e relevante for a informação a ser veiculada, maior quantidade de forma será utilizada para representá-la; segundo proximidade (ou adjacência) quanto mais próximos estiverem dois conteúdos, maior será o grau de integração entre as formas que os representam (esses conteúdos tendem a ocorrer em posições contíguas na estrutura lingüística); por último, ordenação que prevê que a informação mais relevante, ou menos previsível, é colocada antes, ou em primeiro lugar na cadeia discursiva.

Já o conceito de marcação estabelece que significados mais complexos do ponto de vista estrutural e cognitivo ocorrem mais raramente na superfície textual. Sendo assim, contrapõem-se formas marcadas x não marcadas.

De acordo com os princípios aqui referidos, estamos analisando as cláusulas coordenadas com conectivo, pois interessa-nos associar esses princípios aos tipos de coordenadas sindéticas, enquanto modos de vinculação semântico-sintática.

Nesse sentido, para detectar em que pontos do aglomerado paratático estão situados os tipos de coordenadas sindéticas, partimos da trajetória oracional proposta por Hopper e Traugott (93):

 

Parataxe         >         Hipotaxe         >         Subordinação

 - dependente        + dependente              + dependente
 - encaixada            - encaixada                   + encaixada

 

Esta trajetória apresenta-se com três pontos de aglomeração: parataxe ou independência relativa; hipotaxe ou interdependência e subordinação, ou, em sua forma extrema, encaixamento (dependência completa).

É importante ressaltarmos que estamos utilizando o termo genérico parataxe para designar as cláusulas coordenadas sindéticas que mantêm entre si distintos graus de vinculação semântico-sintática.

Conforme tal escala, assumimos a  hipótese de que há um continuum de integração entre as coordenadas sindéticas, que parte de cláusulas mais paratáticas tipicamente até cláusulas menos paratáticas, ou seja, de natureza mais hipotática. Sendo assim, dentro da proposição escalar de Hopper e Traugott (93), as aditivas, adversativas e alternativas estariam mais próximas do aglomerado prototípico paratático, enquanto as explicativas e conclusivas teriam localização em um estágio mais avançado desse aglomerado, uma vez que seriam articuladas por motivações de natureza pragmático-comunicativa, ou seja, representariam uma relação semântica maior em função das relações lógicas que estabelecem.

Em consonância com alguns estudiosos da língua portuguesa – Azeredo (97) e, mais especificamente Bechara (99), entendemos que há graus  diferentes de vinculação nas coordenadas sindéticas. Segundo Bechara (99), há distinção de vínculo entre essas orações. De um lado as aditivas, as adversativas e as alternativas e, de outro as explicativas e as conclusivas.

De acordo com essa subcategorização, podemos dizer que as primeiras (aditivas, adverativas e alternativas) refletiriam um grau de vinculação mais frouxo, no sentido que seriam (-) dependentes e (-) encaixadas, enquanto as últimas (explicativas e conclusivas) refletiriam uma relação mais vinculada, já que seriam (+) dependentes, do ponto de vista das relações lógicas que estabelecem com antecedentes e (-) encaixadas formalmente. Logo, dizemos que estas apresentam dependência semântica, uma vez que a 2ª oração é motivada pela  1ª .

Sendo assim, estamos levantando e classificando as orações coletadas no corpus D & G , a fim de distribuí-las ao longo da escala de integração referida e, dessa forma, chegar ao estabelecimento de um continuum paratático.

Embora nosso projeto objetive detectar os distintos níveis de vinculação no período coordenado, para esta apresentação, estaremos focalizando o parafraseamento enquanto atividade lingüística de reformulação (Hilgert, 93 a, b).

 

3.        Metodologia

 

Com o objetivo de analisar as cláusulas coordenadas que constituem o período composto por coordenação ou parataxe (independência relativa), partimos de uma perspectiva sincrônica com base no – Corpus Discurso & Gramática: a língua falada e escrita na cidade de Niterói – conforme citação no item I deste trabalho.

Estabelecido o corpus, procedemos ao levantamento das cláusulas. Coletamos 40 textos que compreendem as 5 tipologias da fala e da escrita de 4 informantes. Selecionamos 2 informantes do ensino universitário – Eliane, 35 anos e Aydano, 30 anos – e 2 do ensino médio – Margarete, 20 anos e Pablo, 17 anos - , uma vez que os textos  desses informantes estariam mais próximos da língua culta padrão.

Com base na observação dos períodos selecionados, estabelemos as variáveis a partir das quais analisaríamos as orações coordenadas coletadas. Sendo assim, foram selecionadas cinco variáveis: forma verbal (finita/infinita ; Var. A) seqüencialidade (Var. B), sujeito idêntico (Var.C), ausência de inserção (Var.D) e ausência de pausa (Var.E). Essas variáveis, na escala de integração proposta por Hopper e Traugott (93), contribuem para maior integração, uma vez que denotam maior vínculo entre os elementos constituintes do período em coordenação. A partir dessas variáveis, pontuamos as orações com valor 1, em caso de ocorrência da variável, e com valor 0 quando da não ocorrência. Dessa forma, ao final, cada oração analisada obteve uma pontuação de 0 a 5, em que 5 representou grau máximo de integração. Nessa análise, portanto, foram levados em consideração aspectos quantitativos e qualitativos com ênfase para os últimos.

Assim, verificamos a formação de um continuum, que parte de cláusulas mais paratáticas até cláusulas menos paratáticas, ou seja, mais próximas, portanto, do aglomerado categórico hipotático.

 

 

4.        Análise interpretativa:

 

Estabelecido o  corpus  e estipuladas as variáveis, levantamos  164 orações da produção textual dos informantes selecionados. Essas orações foram divididas em dois grupos: de um lado as aditivas, adversativas e alternativas e, de outro, as explicativas e conclusivas. Separamos, também, as orações dos textos orais das dos textos escritos.

Analisando essas orações, percebemos que alguns dados mostravam-se freqüentes : das 164 orações analisadas, 118 eram construções com conector e, embora nem sempre esse conectivo – aditivo por excelência nas palavras de Mattoso Camara - se apresentasse, exclusivamente, com valor aditivo.

A freqüência do uso desse conector pode ser associado ao princípio do uniformitarismo (Labov, 74  e Romaine, 82). Segundo esse princípio, tendências hoje em curso devem ter atuado em estágios anteriores e possivelmente continuarão a atuar. Verificamos que essa tendência tem se mostrado freqüente na língua portuguesa ao longo de suas sincronias.

Outros conectores – mas (adversativo) e porque (explicativo) também mostraram-se incidentes, embora com uma freqüência menor: 20 construções com conectivo mas e 31 com porque.  Por outro lado, verificamos baixíssima freqüência dos conectores alternativos (apenas 5 construções) e conclusivos. Estes últimos não foram encontrados em nenhuma das construções analisadas.

Analisando as orações coletadas a partir das variáveis contempladas: forma verbal (finita/infinita), seqüencialidade, sujeito idêntico, ausência de inserção e ausência de pausa , constatamos ,com base na trajetória de integração oracional, que essa orações obedeciam a um declive unidirecional partindo de estruturas prototípicas paratáticas até estruturas de maior vinculação semântica. Segundo Azeredo (97), estas estruturas possuem certas peculiaridades relativas ao ato da enunciação, funcionam como operadores discursivos, tendo em vista que explicitam a interpretação do locutor sobre a relação entre os dois fatos enunciados na cadeia discursiva. Estas estruturas, devido as relações lógicas que articulam, levam à maior vinculação semântica. Assim, podemos verificar a formação de um continuum de integração entre as orações formadoras do período complexo ou composto.

Tomemos como base ,a seguir alguns exemplos extraídos do corpus D&G, referentes aos informantes Eliane e Aydano (ensino universitário): 

(1) “... ela conheceu e se apaixonou por um menino que morava perto da casa de seu padrinho.”(Eliane; parte escrita; NR)

 

(2) “Basta lermos o que os jornais de língua espanhola diziam há alguns anos atrás e percebemos qual será o fim dele.”(Aydano; parte escrita; RO)

           No exemplo (1), verificamos tendência à máxima integração paratática entre os elementos constituintes da oração aditiva, uma vez que as variáveis revelaram-se negativas à quebra de vínculo. O período coordenado apresenta seqüência (ela conheceu e se apaixonou), sujeito idêntico (ela) e não está intercalado por nenhum elemento nem por pausa. No exemplo (2), confirmamos essa tendência à maior integração das aditivas (Basta lermos (...) e percebemos ; nós).

           Já nos exemplos a seguir, verificamos que o grau de vinculação diminui:

(3) “foi uma pequena tentativa mas ... que fracassou ...”(Eliane; parte oral; NR)

           Com base em (3), podemos observar  tendência à vinculação mais frouxa através da presença da pausa e da inserção do pronome relativo que, estabelecendo uma  mais frouxa entre orações coordenadas.

           No exemplo a seguir também há queda no grau de vinculação:

(4) “ ... parecia ser uma história triste mas no final ... deu tudo certo...”(Eliane; parte oral; NR)

           Em (4), observamos, também, quebra de vínculo expressa pela ausência de seqüencialidade e presença da inserção (no final). As outras variáveis, sujeito idêntico e ausência pausa mostraram-se favoráveis à maior integração.

           O mesmo observamos em (5):

(5) “...  eu não sei  se eu pego ... ou se eu espero o garçom trazer... ” (Eliane; parte oral; NEP)

           Neste exemplo, continuamos a notar tendência à quebra de vínculo expressa pela presença da  não seqüência e da pausa.

           Distintos dos exemplos anteriormente comentados, apresentamos a seguir orações cujas variáveis testadas favorecem à maior vinculação estrutural em função das  relações lógicas  que estabelecem entre si. Essas apresentam-se, portanto, mais vinculadas semanticamente no nível do discurso do que no nível gramatical.

(6) “ Tenho bastante cuidado no trânsito, porque ultimamente as pessoas estão mal-educadas”.(Aydano; parte escrita; RP)

           Analisando (6), podemos observar tendência à menor vinculação formal entre os elementos que compõem a oração explicativa. Por outro lado, a relação semântica de explicação atua na vinculação das duas estruturas oracionais.

Em (7), confirmamos  a mesma tendência à menor vinculação formal. A oração apresenta sujeito distinto e pausa.

(7) “... é uma subida tão íngrime ... né? cansativa ... mas que ... no final ... eh ...  dá um prazer imenso ... porque ... quando eu chego lá em cima ... eu olho aquilo tudo lá embaixo ...”(Eliane; relato oral; DL)

Tomando como base os exemplos anteriormente apresentados, podemos verificar, então, os índices de vinculação dessas coordenadas:

 

 

Enfim, apesar da relativa independência e autonomia assumidas pelo aglomerado categórico paratático, o período composto por coordenação apresentar-se-ia, em algumas de suas expressões, como uma escala de integração.

Para melhor observação dos dados aqui relatados, em relação ao comportamento das variáveis no período coordenado sindético, tomemos como base as tabelas a seguir, relativas aos informantes Eliane, Aydano, Margarete e Pablo: 

a)Informante: Eliane

   Ensino universitário

Tabela 1: 

Relato oral

                                               Aditivas      Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                                (1)   (0)             (1)    (0)            (1)    (0)           (1)     (0)           (1)    (0)

Nº de orações:                        -    12                -       9               -       3              -        7              -       -

Seqüencialidade              4/12  8/12               -    9/9               -    3/3           1/7    6/7             -       -

Sujeito idêntico               7/12  5/12             4/9  5/9             3/3     -            5/7    2/7             -       -

Ausência de pausa        3/12  9/12             2/9  7/9             1/3   2/3             -      7/7             -       -

Ausência de inserção  10/12  2/12            4/9  5/9              2/3   1/3          6/7    1/7             -       - 

Forma verbal (infinita)   3/12  9/12            1/9  8/9                -     3/3          2/7    5/7              -       -

 

Tabela 2:

Relato escrito

                                                 Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                                   (1)  (0)        (1)     (0)             (1)     (0)          (1)   (0)             (1)   (0)

Nº de orações:                           -   19           -        -                 -        -             -       -                -      - 

Seqüencialidade              13/19  6/19          -        -                 -        -             -       -                -      -

Sujeito idêntico               11/19  8/19          -        -                 -        -             -       -                -      -

Ausência de pausa         11/19  8/19          -        -                 -        -             -       -                -      -

Ausência de inserção    12/19   7/19          -        -                -         -             -       -                -      - 

Forma verbal (infinita)    6/19  13/19           -       -                -         -             -       -                 -      -

b) Informante: Aydano

    Ensino universitário

Tabela 1:

Relato oral

                                           Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                            (1)   (0)           (1)    (0)            (1)    (0)            (1)    (0)           (1)    (0)

Nº de orações:                    -      8              -       -               -        -                -       -               -       -

Seqüencialidade              4/8  4/8             -       -               -        -                -       -               -       -

Sujeito idêntico               3/8  5/8             -       -               -        -                -       -               -       -

Ausência de pausa        1/8  7/8              -       -               -        -                -       -              -       -

Ausência de inserção    8/8    -               -       -               -        -                 -       -              -       -

Forma verbal (infinita)     -    8/8             -       -                -       -                 -       -              -       -

 

Tabela 2:

Relato escrito

                                          Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                          (1)  (0)           (1)    (0)             (1)     (0)           (1)    (0)          (1)     (0)

Nº de orações:                  -     2              -       -                 -        -              -       1             -         -

Seqüencialidade              -     2/2           -       -                 -        -             1/1     -             -         -

Sujeito idêntico              2/2   -              -       -                 -        -               -     1/1           -          -

Ausência de pausa       2/2   -               -       -                 -        -              -     1/1            -         -

Ausência de inserção   2/2   -               -       -                 -        -              -     1/1            -         -

Forma verbal (infinita)    -   2/2             -       -                  -        -             -      1/1            -         -

c) Informante: Margarete

    Ensino médio

Tabela 1: 

Relato oral

                                          Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                           (1)    (0)         (1)    (0)             (1)    (0)            (1)    (0)          (1)    (0)

Nº de orações:                   -     10            -       2                -       -                -     10             -       -

Seqüencialidade           8/10  2/10          -     2/2               -       -           3/10  7/10           -        -

Sujeito idêntico             7/10 3/10        1/2   1/2               -       -           2/10  8/10           -        -

Ausência de pausa      5/10 5/10        1/2    1/2              -       -           3/10   7/10           -        -

Ausência de inserção  8/10 2/10        1/2   1/2              -        -          8/10   2/10            -        -

Forma verbal (infinita)  1/10 9/10           -    2/2              -       -          1/10   9/10             -        -

 

Tabela 2: 

Relato escrito

                                         Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                          (1)    (0)       (1)    (0)            (1)     (0)              (1)   (0)               (1)   (0)

Nº de orações:                  -     10          -       2               -        -                  -      1                 -      -

Seqüencialidade            5/10 5/10       -      2/2             -        -                 1/1    -                 -      -

Sujeito idêntico             8/10 2/10      1/2    1/2            -        -                 -     1/1                -      -

Ausência de pausa       9/10 1/10       -      2/2            -        -                  1/1   -                  -      -

Ausência de inserção  10/10   -        1/2    1/2            -         -                1/1   -                  -      -

Forma verbal (infinita)  2/10 8/10       -      2/2             -        -                 -    1/1                -      -

d) Informante: Pablo

    Ensino médio

Tabela 1: 

Relato oral

                                        Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                          (1)   (0)         (1)    (0)          (1)    (0)         (1)     (0)         (1)    (0)

Nº de orações:                  -     52           -       7             -       2            -        -             -       -

Seqüencialidade          36/52  16/52    2/7  5/7           2/2    -            -         -            -        -

Sujeito idêntico           33/52  19/52    3/7  4/7           1/2  1/2          -         -            -        -

Ausência de pausa     10/52  42/52    1/7  6/7           2/2    -            -         -            -        -

Ausência de inserção 40/52  12/52   4/7  3/7           2/2     -           -          -            -        -

Forma verbal (infinita) 12/52 38/52   2/7  5/7           1/2   1/2          -          -           -         -

 

Tabela 2: 

Relato escrito

                                       Aditivas   Adversativas   Alternativas   Explicativas   Conclusivas

                                        (1)    (0)        (1)      (0)           (1)     (0)          (1)   (0)          (1)   (0)

Nº de orações:                -       5           -         -               -        -             -      2             -       -

Seqüencialidade           4/5    1/5        -         -               -         -            2/2   -             -       -

Sujeito idêntico            4/5    1/5        -         -               -         -            2/2   -              -       -

Ausência de pausa      5/5     -           -         -               -         -           1/2   1/2           -       -

Ausência de inserção  5/5     -           -         -              -          -           1/2   1/2           -       -

Forma verbal (infinita) 1/5    4/5        -         -               -         -             -     2/2            -      -

 

 

Ao observarmos as tabela acima apresentadas, podemos verificar que algumas variáveis mostraram-se relevantes. Na oralidade há uma tendência à construções menos integradas, uma vez que não apresentam seqüência e, geralmente, são intercaladas por pausa. Por outro lado, podemos observar que na escrita os períodos apresentam-se mais integrados em virtude da igualdade de sujeitos, da ausência de pausa e inserção.

A partir desses indícios, estamos averiguando o parafraseamento enquanto atividade lingüística de reformulação (Hilgert, 93 a, b) . A presença desse efeito de natureza discursiva, típico da oralidade, vem se evidenciando em algumas das expressões paratáticas analisadas (aditivas). Ao analisarmos os resultados obtidos, constatamos que a variável seqüencialidade, quando ausente indicou quebra de vínculo seqüencial entre os períodos em coordenação, uma vez que o fluxo formulativo é interrompido buscando-se uma nova alternativa de expressão que assegure a intercompreensão e a ênfase no conteúdo informacional veiculado.  Nessa busca de alternativa de expressão, o falante utiliza a pausa como um recurso a preencher lacuna de tempo até que ele (o falante) defina a alternativa adequada para a reformulação. A coordenação assim articulada apresenta quebra de vínculo seqüencial entre os períodos em coordenação.

Observemos os exemplos abaixo extraídos do corpus Discurso & Gramática: 

(8)“... o problema é que ... muitas vezes ... comigo ... na maioria das vezes ... eu não tenho uma opinião formada ... pra ... pra ... pra indicar se eu sou ou não a favor ou contra o assunto ... e  eu fico meio perdido ...” (Pablo; parte oral; RO)

 

(9)“... eu ligo para esse negócio de etiqueta ... esse tipo de coisa ... e  dar uma gafe dessa ...” (Eliane; parte oral; NEP)

 

(10)“eu gosto muito de andar ... tá? durante a manhã ... e o local que eu mais gosto de andar ... é o calçadão da praia de Icaraí ... “ (Eliane; parte oral; DL)

 

(11)“... eu vejo o quanto que eu já caminhei ... né? e  vejo a/o horizonte que tem ... além daquele pedaço ali ...” (Eliane; parte oral; DL) 

Observando os exemplos citados, podemos verificar que essas construções parafrásticas ainda não são o relato, a descrição ou o comentário  em si, mas sim uma espécie de preâmbulo, que o informante a todo instante reformula, para introduzir o conteúdo informacional a ser expresso por ele. Essas informações desempenham no fluxo discursivo uma função de suporte. Sendo assim, podemos relacioná-las com o plano figura x fundo (Hopper, 79), Nestes casos, dizemos que essas informações-suporte estão relacionadas ao fundo, uma vez que são subsidiárias, dando suporte e comentando o que está sendo relatado pela figura.

Embora haja uma quebra seqüencial devido à reformulação, a paráfrase mantém com seu enunciado de origem uma relação de equivalência semântica, retomando, em maior ou menor grau, o conjunto de sentidos articulados, uma vez que tais construções apresentam-se em posições contíguas na estrutura lingüística. Dessa forma, a coordenação, além da vinculação semântico-sintática prototípica, presta-se a estratégias discursivas de ênfase e convencimento.

 

5.        Considerações finais

 

Tomamos como ponto de partida para o estudo das coordenadas sindéticas o texto enquanto unidade lingüística concreta que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor) em uma situação de interação comunicativa (Koch & Travaglia, 97).

Sendo assim, esperamos, com a abordagem escalar das coordenadas, a partir de um corpus ,colhido em situações reais de uso, contribuir para o estudo do período composto por coordenação, tendo em vista o que as gramáticas normativas apresentam, em termos de descrição, nos capítulos referentes à sintaxe oracional.

A partir dessas conceituações, é importante ressaltarmos que o intuito desse projeto não é criticar as gramáticas normativas, mas sim trazer contribuições, a partir de outro ponto de vista, uma vez que analisamos as expressões coordenadas sindéticas dentro de um contexto textual e não isoladamente como blocos distintos.

Com base no exposto, estaremos no 20.  ano deste projeto verificando o grau de vinculação semântico-sintática entre as coordenadas sindéticas, a partir de uma perspectiva pancrônica (sincronia/diacronia) em fontes diversas referentes ao português arcaico a fim de averiguar como se comportam as estruturas paratáticas ao longo de sua trajetória, além de investigar o tipo de processo (variação, mudança, etc.) que vem orientando o uso dessas estruturas. Faremos, também, uma análise das estruturas paratáticas em registros mais formais através de cartas de leitores e editoriais de jornais de maior veiculação.

 

Referências bibliográficas

 

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