4o Encontro do Celsul

Retornar

 

 

PRESENT PERFECT – DIFERENTES USOS

É IGUAL À AQUISIÇÃO DIFERENCIADA?

 

Fabio Madeira

Linda Gentry El-Dash

(Universidade Estadual de Campinas)

 

Resumo: A presente pesquisa visa investigar a aquisição do present perfect por alunos de diferentes níveis de proficiência. Buscando avaliar o desenvolvimento da compreensão desta forma, foi montada uma atividade usando 5 cartoons, cada um deles com frases relativamente simples, exemplificando "significados diferentes" do present perfect. Pediu-se aos alunos de duas turmas de principiantes, uma de pré-intermediário e uma de intermediário, numa faculdade na cidade de São Paulo, que traduzissem as frases de cada cartoon. Os dados foram analisados para identificar a compreensão (ou falta de compreensão) das várias facetas do aspecto semântico desse tempo verbal, a fim de verificar diferenças entre alunos principiantes e intermediários em relação a tal compreensão e, se possível, o nível no qual começa a aparecer a compreensão das diferentes facetas.

Palavra-chave: Present perfect; aquisição; ensino da língua inglesa.

Abstract: The present paper investigates the acquisition of the present perfect tense by Brazilians with different levels of proficiency. In an attempt to evaluate the development of the comprehension of this tense, the authors created an activity based on the translation of seven cartoons, each with a single, relatively simple, caption, and representing "different meanings" of the present perfect. The subjects included two groups of beginners, one of pre-intermediates, and one of intermediate students, all studying at a private college in the city of São Paulo.  They were asked to translate the captions. The data were analyzed to ascertain whether the two facets of the semantic aspect of the present perfect tense were expressed in the translations, as well as to identify possible differences in comprehension between the students of the different levels and verify when such differences occur.

Keywords: Present perfect; aquisition; English language teaching.

 

1.        Introdução

 

   Apesar dos esforços e, muitas vezes, também da criatividade dos professores, o present perfect continua apresentando-se como um dos maiores desafios no processo de aquisição da língua inglesa por alunos brasileiros. Parte desta dificuldade está na gramaticalização obrigatória do aspecto "perfect" no tempo verbal da língua inglesa e esta falta de equivalência entre as línguas inglesa e portuguesa faz com que, aparentemente, existam vários sentidos para esta forma gramatical na língua inglesa. Diversos fatores podem contribuir para a dificuldade na aquisição desta forma, inclusive freqüência de exposição, semelhança aparente com formas ou significados encontrados na língua portuguesa e, talvez o mais importante, a maneira como é apresentada em sala de aula.

 

2.        O aspecto "perfect" da língua inglesa

 

A diferença no tratamento lingüistico de certos aspectos semânticos nas línguas portuguesa e inglesa é um dos fatores que vem trazer tanta dificuldade na aquisição do aspecto "perfect" na língua inglesa pelo aprendiz brasileiro. Apesar do uso dessa forma em situações que exigem o uso de várias formas diferentes em português, o que subjaz o seu uso é unitário.  O significado do tempo verbal do present perfect vai além da noção de temporalidade expressa pelos tempos verbais em português para incluir um aspecto de como está sendo encarada a situação.  No caso desse tempo verbal específico, o aspecto envolvido reflete o estado atual, porém, esse estado freqüentemente reflete o resultado da ação que deu início a ele (El-Dash, 2000).  Assim, a oração "I have bought the book" significa que estou com o livro (estado atual) desde a sua compra (ação que marcou o início do estado). 

A importância de aspecto nos tempos verbais do inglês é citado por vários autores (Comrie, 1976; Dahl, 1998; e Svalberg & Chuchu, 1998), e todos colocam noções semelhantes às de El-Dash (op. cit.) como característica do aspecto perfect na língua inglesa. Entretanto, colocam exemplos que enfatizam as situações onde um evento passado é salientado. Svalberg & Chuchu (1998) afirmam que o aspecto do perfect refere-se a "current relevance (through experience or result at the point of reference)". É Fabricius-Hansen (1998) quem chama atenção para o fato de que a mudança no foco no caso do present perfect do inglês é uma mudança no ponto de vista de eventos para os estados resultantes.  

O que Svalberg & Chuchu (op. cit.) chamaram  "current relevance"  não necessariamente reflete a noção de estado, nem mostra com precisão o papel da ação sendo considerado como relevante.  O fato da relevância de uma ação ser simplesmente marcar o início (ou duração) do estado que proporcionou não fica muito claro.  Além disso, ver situações como o que resultou da compra de um livro como estado é difícil para brasileiros. A tendência é de considerar a ação que deu origem ao estado, sem perceber que existe um estado sob consideração. Esta é a abordagem mais comum no ensino de inglês e demostra porque é tão difícil explicar a diferença entre "I bought the book" (que faz referência à ação da compra em si e que se traduziria perfeitamente por "comprei o livro") e "I have bought the book" (que se refere ao estado resultante da ação da compra do livro, mas também se traduz por "comprei o livro") - uma só tradução para duas maneiras diferentes de encarar uma situação.

Além disso, a explicação sobre resultados e relevância de eventos passados aparentemente não dá conta de várias orações onde o que aconteceu no passado e que é relevante agora é simplesmente a data ou época quando um estado iniciou, como na oração "I have lived here since 1990" (Moro aqui desde 1990).  Isso sim, parece para brasileiros um estado, mas não se distingue do estado expresso pela oração "I live here" (Moro aqui).  A diferença no inglês está no fato de que o simple present sempre trata uma situação como gnômica (Costa, 1997), isto é, um estado "existente", sem limites. Na oração "The sky is blue", por exemplo, a cor do céu é visto como um fato, um estado sem início nem fim, porém, qualquer menção do início ou duração do estado implica no uso do tempo "present perfect", como seria o caso seguinte: "The  sky has been blue since the beginning of time." 

Esta gramaticalização obrigatória da distinção entre encarar situações com ou sem limites é constatado também em outras línguas - Bhat (1999) discute o que chamou de  aspecto "phasal": a opção de considerar os "boundaries" (limites) de um evento ou de encarar a parte em continuidade ou mudança. Entretanto, uma vez que em português considerar os limites ou não num estado é irrelevante, é difícil perceber a importância de tal aspecto em inglês.  Nas duas situações (o posse de um livro depois da sua compra e o morar depois de certa data), diferentes no português, o aspecto de perfect em inglês tem o mesmo papel: o de mostrar uma visão de um estado com limites, o limite de inicio sendo explicitamente expresso, seja pela data, ou simplesmente pelo evento que o proporcionou.

O que realmente chama a atenção é que a língua inglesa tem recursos gramaticais obrigatórios para fazer a distinção entre encarar uma situação como evento ou estado[1]; na língua portuguesa tal distinção é, geralmente, irrelevante. Caso torne-se relevante, a distinção teria que ser feita por paráfrase de algum tipo.  Assim, é possível imaginar a situação de uma pessoa que ia retirar um livro da biblioteca, mas, como não conseguiu, teve que comprá-lo (só que esperou até receber seu o salário).  Uma tradução mais "literal" deste aspecto verbal, para aqui citar um exemplo procurando melhor esclarecer, seria algo como "Ele (só) está com o livro desde que o comprou.", ou ele (já) tem o livro (por que o comprou).  Uma das causas da dificuldade da aquisição desse aspecto é a falta de clareza  para o aluno dos verdadeiros traços semânticos dos tempos verbais das duas línguas.

 

3.        Descrição da pesquisa

 a.  Sujeitos

Os sujeitos desta pesquisa foram 80 alunos de diferentes níveis de proficiência em um curso universitário de graduação de uma faculdade na cidade de São Paulo. O ensino de língua inglesa nesta instituição é dividido em seis estágios de quatro meses cada e os participantes desta pesquisa estão divididos em primeiro, segundo, terceiro e quinto estágios.  A faixa etária destes estudantes varia entre 18 e 35 anos. A grande maioria dos sujeitos é do sexo feminino (95%). 

b.  Objetivos da pesquisa 

O presente estudo teve como fim observar a sensibilidade em relação à tradução do "significado" do present perfect em situações diferentes e tentar discernir em que nível os aprendizes começam sentir as várias facetas desse tempo verbal. 

c. Material

Foram, inicialmente, escolhidos sete cartoons (ver anexo), nos quais as falas dos personagens consistiam em uma sentença (pergunta ou afirmação) contendo present perfect, com um dos exemplares utilizando o present perfect continuous para contraste; entretanto, dois cartoons foram posteriormente descartados da análise, um deles devido à má qualidade da impressão na cópia, que proporcionou pouca clareza da situação, dificultando assim a compreensão do cartoon.  O outro foi descartado pois houve erro de digitação e, no momento da análise dos dados, ficou evidente que muitos dos alunos não haviam feito a correção adequadamente.

Dois cartoons evocavam uma tradução enfatizando a faceta de "resultado" (com a ação que proporcionou o estado indicado). No primeiro, um rapaz está olhando para uma mosca presa num vidro enquanto escreve uma carta para a sua mãe: "Dear Mum, I've found a friend." (Querida mamãe, encontrei um amigo) e no outro um executivo  encontrou na gaveta do arquivo uma cópia dele mesmo: "Get my parents, Miss Dawlish, I have just discovered that I have a twin brother" (Ligue para os meus pais. Acabei de descobrir que tenho um irmão gêmeo).

Outros dois  cartoons apresentaram o uso do present perfect com a idéia de estado (para o falante nativo, limitado), nos quais a tradução mais adequada seria feita com o presente do indicativo em português. O primeiro consistia na figura de um pai apresentado sua filha a um rapaz: "Have you met my daughter?" (Você conhece a minha filha?).  O outro mostrava um executivo sentado atras de um escrivaninha num campo rural entrevistando um rapaz a procura de um emprego: "Have you had any previous experience in this particular field, Mr. Barsby?" (Você tem (alguma) experiência nesse campo?)

O cartoon usado para exemplificar o present perfect continuous apresenta ilustração semelhante à do primeiro cartoon, porém, desta vez, o pai está zangado com o rapaz: "Have you been meeting my daughter?" (Você vem se encontrando / está saindo com a minha filha?)  Aqui a situação envolve uma ação habitual (de encontros com a filha) que começou no passado e continua até o presente, de aspecto semelhante em português com "você tem saído".  É esta, entretanto, a explicação freqüentemente, porém, não adequada, usada para explicar o present perfect.   

d.  Metodologia

Pediu-se aos alunos que traduzissem cada cartoon com suas próprias palavras, contanto que a tradução fosse fiel à fala do personagem do cartoon. Algumas palavras foram traduzidas[2] visando esclarecer aos alunos que o enfoque não recaia sobre o léxico e proporcionar maior compreensão dos cartoons. A atividade foi ministrada durante uma aula normal de inglês, mas antes de iniciar a tradução, os alunos foram informados que estariam participando de uma pesquisa. Buscando garantir não apenas maior participação mas também maior espontaneidade na participação, foi dada a eles a opção por identificarem-se ou não, procurando assim encorajá-los a arriscar uma tradução que lhes parecesse possível, mesmo que não tivessem certeza.  Coletados os dados, os instrumentos foram divididos de acordo com o nível de proficiência dos alunos (estágios 1, 2, 3 e 5). A avaliação foi feita observando especificamente a tradução do tempo verbal do present perfect no contexto de cada cartoon. 

 

4.        Resultados

 

   Após a coleta, as traduções do present perfect foram avaliadas em relação aos aspectos (e facetas) expressos.  Embora nas frases em inglês as duas facetas de estado atual e a menção do limite ou ação que o proporcionou estejam presentes simultaneamente, é comum não poderem ficar explicitas ao mesmo tempo na tradução do verbo em português, pelo menos quando o "limite" é a ação que proporcionou o estado[3]; desta forma, o aluno é forçado a enfatizar uma ou outra.  Em tais casos, é comum no ensino de inglês no Brasil enfatizar a ação e sua completação, um aspecto possível em português. Neste estudo foram identificados os seguintes aspectos e facetas nas traduções: estado, com sigla E (uso do presente do indicativo em português), resultado, com sigla R (uso do perfeito), continuação até o presente (uso de uma locução verbal do tipo "ter feito"), com sigla D, ação em progresso - P -  (com a forma gerúndio), hábito (H), posse (T) (verbo have como "possuir"). Foram tabuladas as traduções segundo estas maneiras de encarar a situação.

   Os resultados serão discutidos em três partes:  os cartoons nos quais a faceta de resultado é mais fácil de expressar (Figs. 1 e 2); os cartoons nos quais a faceta de estado deveria predominar (Figs. 3 e 4) e o último cartoon (Fig. 5), que une o aspecto da continuação de uma ação de duração temporária ao aspecto do perfect de estado limitado para expressar uma situação equivalente às locuções verbais de ter feito/ vir fazendo.

 Cartoons que sugerem resultado

   A maioria dos casos do present perfect em inglês expressam a existência de estados que refletem o resultado da ação que os proporcionou e a estratégia comum em aula de inglês para lidar com este conceito, que não existe em português, é  falar de uma ação terminada, o que se assemelha ao conceito de resultado. Assim, no primeiro cartoon a ser discutido (que mostra o rapaz com o sua "mosca amiga") a tradução mais adequada seria o uso do perfeito, que dá uma ênfase ao término da ação de "encontrar". Percebe-se que contato maior com o ensino formal da língua inglesa proporcionou maior precisão em expressar essa faceta, (fig. 1) que é a que geralmente recebe mais ênfase na instrução.

 

 

E

R

D

P

H

T

Estágio

 

 

 

 

 

 

1

14

77

-

9

-

-

2

-

88

6

6

-

-

3

-

88

-

-

-

6

5

-

100

-

-

-

-

Figure 1. Aspectos explicitados pelos sujeitos na tradução de have found (em porcentagem, eliminando itens em branco).

 

O segundo cartoon a ser discutido também apresenta uma situação de uma ação terminada, no caso, recentemente; o fato do executivo ter acabado de descobrir uma cópia de si mesmo no arquivo.  Novamente, a resposta mais adequada seria o uso do tempo verbal perfeito. A presença do advérbio "just" proporciona uma ênfase no fato da recentidade do evento e pode levar ao uso do verbo "acabei", que talvez facilitasse a escolha da forma correta. Esse aspecto de término foi acertado por 100% dos alunos nos 2º e 3º estágios, embora tenha havido diminuição na porcentagem de acertos entro os alunos do 5º, (assunto discutido abaixo com mais detalhes).

 

 

E

R

D

P

H

T

Estágio

 

 

 

 

 

 

1

10

85

5

-

-

-

2

-

100

-

-

-

-

3

-

100

-

-

-

-

5

0

85

15

-

-

-

Figura 2. Aspectos explicitados pelos sujeitos na tradução de have discovered (em porcentagem, eliminando itens em branco).

 

Esses resultados mostram claramente o aumento, ao longo do tempo, na precisão da tradução do present perfect em situações onde  uma ação explicita proporcionou o estado.  Alguns alunos no estágio inicial erroneamente usaram um verbo no presente do indicativo para a sua tradução, talvez por ser a única forma por eles conhecida, mas a grande maioria o traduziu como uma ação terminada no passado, noção que existe em português e dá conta desta situação.  A tradução desses dois cartoons mostra que o que é ensinado melhora gradativamente com o contato com a língua e reflete a aquisição gradativa da idéia do resultado, uma das facetas expressa pelo present perfect.

 Cartoons que sugerem estado atual

Os próximos dois cartoons a serem discutidos envolvem a ênfase no conceito de estado atual.  A falta de equivalência entre inglês e português está aqui relacionada com o fato de que, em inglês, gramaticalmente, um estado não pode ser limitado. Se tal limitação ocorrer, devido à menção do início ou duração do mesmo, o tempo verbal passa, obrigatoriamente, para o present perfect, enquanto em português tais limitações são perfeitamente compatíveis com o uso do tempo presente do indicativo.

   No terceiro cartoon, que mostra o pai apresentando  sua filha a um rapaz, a tradução mais adequada seria com o presente do indicativo "conhece", mas tal tradução entra em conflito com a tradução do "present perfect" mais comum das escolas. Na medida que os alunos vêm tendo contato com as aulas, mais difícil torna-se perceber essa faceta do aspecto e maior é a possibilidade de o aluno errar na sua tradução (fig. 3). Assim, a maioria dos alunos nos primeiros estágios usaram o presente e depois de mais contato com o ensino em sala de aula (com enfoque na faceta de resultado), os alunos tendem a automatizar o uso do perfeito, em português, para traduzir o present perfect, mesmo quando isso não  faz sentido - se têm problema, tendem a usar o "ter feito" em vez do presente do indicativo. Assim, o efeito de hipergeneralização ("overgeneralization") (McLaughlin, 1987) fica bastante evidente - aprendem que o present perfect  é traduzido com o perfeito; se perceberem que isso não é adequado, procuram outra solução, mas nesta situação, o presente é somente uma das opções tentadas - a faceta da continuidade envolvida num estado/hábito (unido com a semelhança na forma) aparentemente leva muitos a optaram pelo uso do "ter feito", embora esta tradução não seja adequada nem faça sentido em português.  A rejeição do perfeito fica maior para os alunos mais avançados, enquanto a não aceitação do presente também cresce. Um terço dos sujeitos mais avançados procurou outra solução.

 

 

E

R

D

P

H

T

Estágio

 

 

 

 

 

 

1

67

29

4

-

-

-

2

61

33

6

-

-

-

3

53

41

6

-

-

-

5

33

33

20

-

7

7

Figura 3. Aspectos explicitados pelos sujeitos na tradução de have met (em porcentagem, eliminando itens em branco)

 

 O quarto cartoon, que mostra uma entrevista para um emprego conduzida num campo rural, proporcionou a maior diversidade de respostas.  A situação não é tão clara nem tão familiar quanto a do terceiro cartoon e o valor formuláico do uso de uma expressão fixa contendo o tempo presente do indicativo não fica tão evidente. Além disso, o uso do perfeito não é tão obviamente problemático. A familiaridade maior com o passado e o particípio passado do verbo "have" (em contraste com o particípio passado irregular de "meet" no primeiro cartoon) também pode ter causado o maior número de erros pelos principiantes. Por isso, houve uma vacilação maior nas traduções, com as escolhas de "estado" e "resultado" sendo quase que igualmente representadas desde o primeiro estágio até o terceiro (fig. 4). Por outro lado, percebe-se um nítido aumento no uso do perfeito e diminuição equivalente no uso do presente (mais adequado) com alunos mais avançados.  Enquanto no primeiro cartoon os alunos mais avançados se dividiram numa forma balançada entre o uso do presente (estado) e perfeito (resultado), no último estágio uma porcentagem bem maior (64% vs. 21%) optou pelo perfeito.

 

 

E

R

D

P

H

T

Estágio

 

 

 

 

 

 

1

40

4

16

-

-

-

2

46

46

7

-

-

-

3

41

52

5

-

-

-

5

21

64

14

-

-

-

Figura 4. Aspectos explicitados pelos sujeitos na tradução de have discovered (em porcentagem eliminando itens em branco).

 Cartoon com verbo no present perfect continuous                

   O que distingue a situação do último cartoon (do pai reclamando do fato que o rapaz vem encontrando com a sua filha: have you been meeting my daughter?) da situação dos anteriores fica no acréscimo do aspecto de duração temporária às facetas do aspecto do perfect.  Para falantes de português, entretanto, o acréscimo desse aspecto  adicional resulta em uma situação mais próxima a uma situação em português que tende a ser verbalizada. Ações de duração temporária costumam ser expressas com o gerúndio; além disso,  a continuidade de ações como essas até o presente é expressa via a locução verbal comum "ter feito".  Os resultados (fig. 5) sugerem que a presença do ing na forma do verbo ficou bem saliente para os alunos. Mais  da metade deles deixou este aspecto de progressivo explicito, ou com a locução verbal  "ter encontrado" (D) ou uma forma do progressivo (P), ambos sendo corretos dentro da situação representada.

 

 

E

R

D

P

H

T

Estágio

 

 

 

 

 

 

1

8

31

35

23

-

3

2

22

11

50

17

-

-

3

12

19

38

25

-

-

5

-

13

67

20

-

-

Figura 5. Aspectos explicitados pelos sujeitos na tradução de have been meeting (em porcentagem, eliminando itens em branco).

 

5.        Discussão

 

Os dados dessa pesquisa aparentemente reforçam os achados dos teóricos da SLA e as informações vindo da psicologia cognitiva. O ser humano tem recursos mentais limitados e somente consegue lidar com um número limitado de estímulos. Isso é uma das bases do primeiro princípio do processamento de insumo de VanPatten (1990): o aprendiz primeiro procura o significado do insumo. Tal estratégia é eficiente no processamento, mas leva a um enfoque inicial nos itens lexicais, não nas formas gramaticais; o verbo como item lexical é identificado e processado pelo significado, e o processamento de detalhes gramaticais, que sobrecarregariam os recursos do cérebro,  são deixados de lado.  No caso dos cartoons neste estudo, o aprendiz pôde identificar os verbos "encontrar", "descobrir", "conhecer", e "ter". Sem processar as flexões e informações gramaticais (como, por exemplo, aspecto), have found e have  just discovered sugerem atos unitários, dos quais a tradução usando o perfeito dá conta perfeitamente, enquanto "have met", especialmente na situação ilustrada, submete à expressão fixa "você conhece a minha filha?". Assim, os principiantes puderam acertar o significado desses três verbos só pelo reconhecimento do seu significado através do item léxico envolvido.  As informações gramaticais sobre tempo e aspecto não são percebidas, ainda menos processadas.

A presença da flexão verbal ing  no segundo cartoon, entretanto, chamou a atenção dos alunos.  O gerúndio é uma das primeiras formas verbais a ser adquirida (Dulay e Burt, 1974) e vários alunos confirmaram o papel facilitador desta forma. Mesmo com um tempo verbal relativamente desconhecido, a presença do  sufixo -ing os levou a perceber o aspecto de progressão. Reconhecido este, muitos usaram a forma do gerúndio na tradução, enquanto outros, percebendo a presença do "have" e o fato de "ter encontrado" compartilhar com o aspecto de progressão, optaram pelo uso  dessa forma.  Assim, mesmo sem o efeito da instrução da forma verbal específica, a maioria dos alunos conseguiu acertar a tradução do present perfect continuous.

Ocorre também que, durante o curso, os alunos estão acumulando experiência com a língua, recebendo orientações sobre o seu funcionamento nas aulas. O ensino tende a enfocar, entre outros temas, os tempos verbais, e estes incluem o present perfect e seu significado. Uma vez que a maioria dos casos de uso do present perfect envolve uma ação como limite de um estado (uns 80% dos exemplares, segundo alguns autores), a estratégia preferencial no ensino tende a enfatizar tais situações, ensinando e treinando o aluno a ver tais exemplos como resultados e  proporcionar a tradução com o perfeito do verbo, enfocando assim a interpretação de uma ação terminada (freqüentemente reforçada pelo uso do adverbio "já"), ou mesmo restrita apenas à ação em si. Ao passar do tempo, tal tradução de perfeito vai se tornando cada vez mais automática (McLaughlin, 1987). 

Existem, entretanto, situações onde o present perfect é usado para falar de estados sem menção de uma ação iniciadora, mas com  menção do momento ou data de início.  Para estes casos, a estratégia de expressar uma ação terminada não é adequada. Nas fases iniciais de aprendizagem, pressões causadas pela limitação de memória podem evitar  a percepção do aluno e a adequação da tradução com o perfeito.  Com isso, o uso do perfeito para traduzir o present perfect  acaba automatizando-se (McLaughlin, 1987) inclusive sendo transferido para outras situações na quais não cabe o seu uso.  Esta hipergeneralização da estratégia do uso do perfeito para traduzir o present perfect é um exemplo do que Selinker (1972) chamou de "transfer of training", que se refere a erros cometidos devido à maneira como é ensinado alguma coisa. 

Quando os recursos lingüisticos se desenvolvem mais, o aprendiz consegue liberar recursos mentais para enfrentar novos desafios e começa a perceber a presença dos sufixos, como também a inconsistência na tradução com o perfeito.  O desenvolvimento da interlíngua no cérebro do aprendiz não é um processo cumulativo, de adição de novos elementos um após o outro.  O aprendizado é parcial e futuros insumos podem funcionar não apenas para a introdução de novos elementos, mas também para engatilhar a reorganização das estruturas já existentes.  A percepção da falta de adequação  entre os resultados de sua interlíngua e a língua alvo leva assim a uma reconsideração (geralmente inconsciente) do sistema de interlíngua e à sua reestruturação, resultando em uma reorganização das estruturas (McLaughlin, 1987).  Tal reestruturação ocupa muitos dos recursos mentais limitados do aprendiz, deixando menos atenção para outros aspectos.   Além disso, a própria reestruturação leva à formulação de novas hipóteses sobre o comportamento da língua alvo.  Com isso, a aquisição de segunda língua passa por momentos nos quais há reincidência de erros e perda das formas que pareciam já ter sido aprendidas:  

"...an increase in error rate in one area may reflect an increase

in complexity or accuracy in another, followed by overgeneralization of

a newly acquired structure, or simply by a sort of overload of

complexity which forces a restructuring, or at least a simplification, in

another part of the system."  (Lightbown (1985) apud McLaughlin (1987): p. 177) 

Os resultados aqui mostram claramente esse processo. O que fica bem evidente nesse pequeno estudo é que depois de nítida melhora na precisão da tradução do tempo verbal em inglês do primeiro até terceiro estágio, há uma clara piora no quinto estágio.  Isto parece mostrar que o processo de aquisição de segunda língua não  foi puramente linear e cumulativo. Os alunos do 5º estágio cometeram  mais erros, mas esses podem ser fruto de um avanço para uma nova fase na qual tudo no sistema está sendo revisto e reelaborado.

Os resultados desta pesquisa mostram assim a importância do tratamento do present perfect em sala de aula.  A solução para os casos mais comuns de uso do present perfect leva ao ensino de uma estratégia para dar conta desta faceta, o que proporciona a tradução com o perfeito do verbo e a idéia de resultado de uma ação.  Mas existem as outras situações (mesmo que limitadas a uns 12%) para as quais a estratégia inicialmente adotada não daria conta. É difícil considerar uma data como tendo resultado!

Por outro lado, uma estratégia para lidar com essa forma menos freqüente talvez levasse a uma compreensão melhor da semântica do present perfect. Talvez o aluno pudesse ser levado a perceber que o presente do indicativo em português, como o simple present em inglês, expressa um estado, mas que a situação em português difere da situação em  inglês, por que nesta língua estados são gnômicos.  Ele precisaria então perceber que a menção do início de um estado é tão saliente que faz com que o falante de inglês olhe para a situação de um  ponto de vista diferente. O  que o aluno brasileiro precisa entender é que este ponto de vista é assinalado gramaticalmente na língua inglesa através do uso do tempo present perfect.  O fato de que nesses exemplos menos comuns do uso do present perfect as duas facetas ficam explicitas -- estado e limite -- pode facilitar a  compreensão.  Uma possível transição para o uso mais comum pode ser   mostrar ao aluno que um evento que proporciona um estado, da mesma maneira que uma data, pode também marcar o início de um estado.  O problema de como expressar um estado resultante de uma ação permanece, mas a partir desta polêmica talvez seja possível chegar à mesma solução do uso do pretérito para mostrar término de uma ação, porém agora dentro de em arqueboço mais adequado. Dado a dificuldade de alunos brasileiros lidarem com esse tempo verbal, pode valer a pena experimentar uma nova abordagem para o seu ensino.

 

Referências bibliográficas

 

BHAT, D. N.S. The Prominence of Tense, Aspect and Mood. Amsterdam: John Benjamins, 1999.

COMRIE, B. Aspect. London: Longmans. 1976.

COSTA,  S. B. B. O aspecto em português. São Paulo: Contexto, 1997

DAHL, Ö.. "Aspect" em Jacob L. Mey (org.). Concise Encyclopedia of Pragmatics Amsterdam: Elsevier, p. 64-71, 1998.

DULAY, H., e BURT, M. "Natural sequences in child scecond language acquisition". Language Learning, 24: 37-53, 1974.

EL-DASH, L. G. "Implicações pragmáticas da semântica dos tempos verbais da língua inglesa", minicurso apresentado no VIII Simpósio de Letras e Lingüística da Universidade Federal de Uberlândia, 2000.

FABRICIUS-HANSEN, C. "Tense and Time, Pragmatics of" em Jacob L. Mey (org.). Concise      Encyclopedia of Pragmatics Amsterdam: Elsevier, p. 1000-1001. 1998.

MCLAUGHLIN, B. Theories of Second-Language Learning. Londres, British Library Cataloguing Publication Data. 1987.

SELINKER, L. "Interlanguage" International Review of Applied Linguistics, 10: 209-231., 1972.

SVALBERG e CHUCHU, 1998.

VANPATTEN, B. Input Processing and Grammar Instruction: Theory and Research. Norwood, NJ: Ablex Publishing Corporation. 1990.

 

Notas


[1] A distinção entre estado e evento é freqüentemente considerado uma questão de "aktionsart" (Bhat, 1999), uma vez que a distinção envolve o item lexical. Assim, em inglês, "like" representa um estado (basicamente permanente), sem envolver mudança, enquanto "eat" representa um evento envolvendo mudanças.  Como Bhat aponta, a distinção é confusa, uma vez que a interpretação do falante da estrutura inerente da situação (aktionsart) é influenciada pelo ponto de vista próprio desse indivíduo em relação à situação (aspecto). 

[2] foi dada a tradução de "twin brother", como "irmão gêmeo". 

[3] No caso do limite ser a data ou momento da origem do estado (ou a sua duração), a tradução pode facilmente conter as duas facetas, com o presente do indicativo indicando o estado e o seu início podendo ser expresso normalmente via uma expressão adverbial.

 

© 2009 – CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul