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TEXTO DISSERTATIVO:

DINAMIZANDO PROPOSTAS

 

Otilia Lizete de Oliveira Martins Heinig

(Universidade Federal de Santa Catarina/ Universidade Regional de Blumenau)

Adriana Fischer

(Universidade Federal de Santa Catarina)

 

Resumo: As mudanças, na área de produção textual,  não têm chegado de forma qualitativa até a prática pedagógica. A busca por essa investigação torna-se instigante, pois o ato da escrita, como  uma atividade voltada à auto-afirmação, está longe da academia. Eis a razão de desenvolver uma pesquisa de caráter qualitativo na Furb.

Palavra-chave: Texto; ensino; condições de produção; tipologias de texto.

 

1. Introdução

 

Os resultados e reflexões aqui apresentados já são alvo de  pesquisas desde a década anterior quando  uma das pesquisadoras trabalhava com o ensino fundamental e médio.  Posteriormente, trabalhando na Universidade, foi possível perceber que havia uma lacuna entre este e aquele ensino no que se refere ao texto dissertativo.  As pesquisas feitas foram, então,  a razão de ser da sua dissertação de Mestrado.  O tema ainda estava quente no meio acadêmico quando uma aluna constatou, em sua vivência, a necessidade de aprender e investigar o texto dissertativo.  Devido a isso nasceu o primeiro projeto de pesquisa, desenvolvido em 1997.  Terminado o ano, percebeu-se que era preciso dar uma resposta à amostra investigada por nós e surgiu, então, o segundo projeto: A necessidade do texto dissertativo de caráter científico no III grau – como torná-lo vital e dinâmico.

Este projeto, além de levantar dados junto aos cursos de Licenciatura da Universidade Regional de Blumenau, também ofereceu um curso de produção textual no qual os acadêmicos puderam aprender e trocar experiências.  Esse convívio foi o alvo de análise e pode ser encontrado detalhadamente no relatório entregue ao PIPe, órgão financiador da pesquisa.

O que esse artigo pretende não é especificamente tratar o dados, mas refletir com a comunidade acadêmica, professores e alunos, acerca de como está o ensino do texto dissertativo em todos os níveis e quais as propostas que a universidade pode efetivamente colocar em prática.  Acredita-se que a pesquisa deva ter um embasamento teórico que dê suporte à tese defendida, mas seria ingênuo parar por aí.  Dessa forma, desejamos alterar o processo e provocar transformações que alterem o ponto de vista de quem produz  textos.

 

2. A nossa pesquisa faz parte do mundo acadêmico

 

O ato de escrever vem sendo pesquisado, discutido e revisto nas duas últimas décadas com bem mais freqüência por várias instituições de ensino de nosso país.  Isso se deve a nova visão que se está formando a respeito do ensino de língua.  Ou seja, está se abandonando o velho paradigma no qual a gramática era ensinada de forma fragmentada e as aulas de Português tinham sessões bem distintas: uma para leitura, outra para o estudo do vocabulário, outra para a gramática, outra para a redação e, se fosse o caso, a literatura.  Dessa forma, ia se pensando a aprendizagem da língua mãe.  De repente, diante de textos de alunos egressos do segundo grau, começaram a ser levantadas sérias interrogações:  que problemas estão ocorrendo que levam à construção de um texto tão fragmentado?  

Estudos feitos por  Luft[1] e  Pécora[2] apresentam como está a realidade educacional  no que se refere ao texto escolar. Para este, o problema maior não reside na assimilação de regras e exceções do português padrão, mas  na excessiva ênfase que se dá ao seu ensino.  O aluno até consegue assimilar as regras, entretanto, faltam-lhe  referências para pensar e interpretar o texto.  Aquele afirma que as aulas de Português deveriam dar ênfase à leitura, comentário, análise e interpretação de bons textos, oportunizando a tentativa constante de produzir pessoalmente textos bons.  Mas a realidade é bem outra.  Confunde-se estudar a língua com estudar gramática; expressão escrita com “fazer redação”,  para o professor corrigir e não para o aluno criar livremente, oportunizando o seu crescimento.  Devido a isso acontece uma inversão na vida da criança,  pois ao ingressar na escola sente prazer em lidar com a língua, entretanto “à medida que suas folhas se enchem de correções do professor, e ela é censurada na sua linguagem,  submetida a normas puristas, ao estudo da Gramática, a criança perde a espontaneidade, e parte importante de sua personalidade se encolhe, fica tolhida, murcha.” (Luft, 1985: 23) O professor corrige pilhas e pilhas de textos numa atividade mecânica que busca os erros, e isso se torna normal em sua realidade. São funções que se cristalizam: a uns cabe escrever e a outros, corrigir. Há que se perceber a dicotomia correção/avaliação, pois o que se tem num quadro como esse, é um mero profissional do erro, acrítico, cansado, analisando cada texto como resultado final e não como processo, vendo a obra, mas se esquecendo que há também um autor.

Atitudes como essas, deixam brechas para se acreditar que o sistema, em que se encontra a escola, é autoritário. Portanto, aluno e professor devem reconhecer seu lugar e sua função e se ater a isso. Por serem eximidos de responsabilidades, alunos e professores irão agir de acordo com o sistema autoritário, no qual as pessoas são levadas a fazer qualquer coisa desde que tenham certeza de não serem descobertas. O não-fazer responsável instaura um jogo de ameaças e subornos. Nele se opõe aquele que não aceita o sistema, mas também não procura alterar o processo e aquele que, mesmo sob ameaças, questiona e sai de uma posição cômoda. Neste impasse entre ficar, calar, mudar ou aceitar, as escolhas são, na sua maioria, motivadas por interesses externos aos que estão envolvidos no processo de educar. Assim, a crença que perpassa o ensino, em especial o do texto, é justamente essa: o professor não se questiona.

A impressão que se tem é que todo o problema está na escola, mas isso não procede, pois 

não se pode ser tão pessimista a ponto de acreditar que a escola só oferece oportunidade de reproduzir. O problema é bem mais amplo, pois, apesar de todos os dias o homem se defrontar com situações, nas quais é convidado a argumentar, prefere calar. A própria família já define a forma e a hora de expressão, a escola reforça e, depois, também, no trabalho e na sociedade se aprende que não vale a pena questionar. Diante de um mundo de silêncio e submissão, o texto dissertativo, o ato de argumentar não são encarados com a devida seriedade. Ou talvez, por se saber o poder da palavra bem empregada, a sociedade como um todo: família, escola, trabalho, Estado, prefira que o texto da fantasia, presente na telenovela, no filme, no gibi, no romance,... ocupe o espaço de silêncio que existe e faça do homem um ser mais mudo do que é. Talvez... (Heinig ,1995:79) 

Mas que razão leva a uma opção tão restrita quanto aos gêneros do discurso na escola?  Martin[3] revela que crianças, da Educação Infantil, bem como do Ensino Fundamental (séries iniciais), têm pouco acesso à diversidade de gêneros discursivos, causando sérias conseqüências para a vida futura desses cidadãos. Para este autor, “inconscientemente, o sistema educacional tem desenvolvido uma forma de ensinar a linguagem escrita às crianças que as ajudam a internalizar a falta de poder tanto quanto possível. Sejam quais forem as intenções das pessoas responsáveis por esse tipo de atitude, essa é maneira pela qual escrita e poder estão relacionados em nossas escolas.” (1990:57)  [tradução nossa]. É o poder que ensina primeiramente a escrever. Há um grande número de gêneros escritos explorados, os quais não são encontrados na fala, como os artigos de jornal, reportagens, editoriais, textos de livros de vários tipos, legislação e assim por diante. Portanto, há a concentração no estudo de textos em poucos gêneros escolares em meio a um vasto número de possibilidades de escrita que existem. As funções da escrita e da fala divergem. Aqueles que são letrados no tocante aos gêneros escritos tornam-se mais poderosos do que aqueles que não são. A escrita tem se tornado a forma prestigiada da língua, enquanto a fala é desvalorizada.  Isso mostra que a escola não prepara os alunos para o exercício da escrita. São dez anos de trabalho com narrativas – escrita expressiva – e dois anos de crítica literária. Em nenhum momento as escolas pesquisadas por esse autor preparam para a demanda da escrita das diversas atividades na universidade. Isso não é diferente em nossa realidade, pois também aqui a universidade passa a ser cada vez mais elitista e discriminatória. Privar o aluno de oportunidades de produção e contato com o exercício da escrita a partir de diversificados gêneros é negar-lhe a possibilidade de estabelecer a ligação que se faz entre textos e vida, pois como afirma Brandão (2000: 283) “a variedade dos gêneros do discurso pode revelar a variedade dos estratos e dos aspectos da personalidade individual e o estilo individual pode relacionar-se de diferentes maneiras com a língua.”  

O trabalho com diferentes gêneros deveria ser estimulado, uma vez que leva o aluno ao reconhecimento das produções textuais que circulam na sociedade, as quais possibilitam que ele desenvolva, de maneira mais crítica, sua forma de se expressar diante das mais diversificadas atividades de interação. A escrita factual, por exemplo, permite a exploração do mundo que nos cerca, diferenciando-se da função das estórias em nossa cultura, as quais existem para entreter, para incentivar a criatividade e a imaginação. Isso revela que os gêneros apresentam funções diferentes. No entanto, um dos maiores problemas que as crianças enfrentam na escola é a escolha, por parte do professor, pela produção, quase que exclusivamente, da narrativa à escrita dos textos factuais. Conseqüentemente, em atividades desse gênero, os alunos, em geral, necessitam se justificar nas suas produções escritas, uma vez que são desencorajados à expressão própria dos sentimentos, atitudes e pontos de vista. Esse quadro revela o que aborda Fiad[4] (1997: 157): “há a produção de um ‘estilo escolar’ que visa a homogeneização.” A escola não tem consciência que, em grande parte, é através da construção do estilo que se é possível falar em construção do aluno/autor: aquele que se responsabiliza pelo que escreve, que revela sua identidade, seu saber através da expressão das palavras e, acima de tudo, que tem para quem dizer o que tem o desejo de enunciar. Esses dados ainda assustam! Mas será que alunos necessitam, tão somente, absorver gêneros escolares ou deveriam ser orientados a explorar as diferentes formas de linguagem escrita a fim de terem melhores possibilidades de atuação num sistema capitalista que busca qualidade e criatividade nos sistemas de produção? 

Todas essas colocações visam a uma reflexão acerca dos alunos  que se encontram nos cursos de Licenciatura da FURB.  Eles não são diferentes dos analisados por esses autores e, por consegüinte, apresentam problemas tanto para produzir o seu texto como para fazer com que seus futuros ou atuais educandos  se sintam seguros e desejosos por produzir textos.  Foi exatamente essa constatação que motivou a nossa pesquisa e fez com que  realizássemos estudos mais detalhados sobre o tema e apresentássemos uma alternativa para a  amostra interessada.

 

3.  A escrita da palavra: da construção do ponto de vista à produção do texto dissertativo

 

O ato de escrever não pode ser entendido somente como uma mera reprodução de idéias. Conforme constatado por vários pesquisadores e ratificado em nossa pesquisa, escrever é uma necessidade de auto-afirmação, de mudança e de desejo. Um ato que precisa ser considerado seguro e prazeroso. O contato com a produção escrita, reveladora das próprias potencialidades, proporciona um encontro com a magia de descobrir-se e revelar-se como pessoa.

Constantemente o ser humano mantém relações, sejam  de caráter afetivo, profissional, político. Para que essas relações sejam bem sucedidas, o homem tem a necessidade de expor opiniões sobre aquilo que pensa. Em conseqüência,  utiliza, constantemente,  uma linguagem dissertativa, ou melhor, organiza suas frases, textos, idéias, faz uso de argumentações, procura defender o seu ponto de vista para chegar a conclusões capazes de convencer e persuadir – influenciar o pensamento e o comportamento do outro. Porém, essas atividades dissertativas só se fazem reais, principalmente no que se refere à escrita da palavra, se o homem mantém um contato direto com a realidade, ou seja, se está continuamente realizando leituras, discutindo, analisando e criticando o mundo que o cerca, a fim de formar um ponto de vista, capaz de traduzir seus anseios, objetivos, desejos, seu modo de pensar e agir.

Se o homem utiliza o discurso dissertativo constantemente para se relacionar e se necessita demonstrar o ponto de vista com vigor para ser bem aceito no meio, no qual vive, o que se pode explicitar sobre ponto de vista[5]?

Ele é entendido como posicionamento diante de um tema, baseado em uma tese fundamentada, a qual se impõem a construção de argumentos, ou seja, formulação e reformulação das idéias e conceitos anteriormente internalizados e, por fim, é uma forma de discussão, uma vez que transmite as idéias, os conhecimentos de um ser. O ponto de vista se forma através do relacionamento contínuo do homem com o mundo; da formação pessoal de cada indivíduo, das leituras realizadas por ele e do seu posicionamento na sociedade. Devido a esses motivos é que se defende a necessidade de leitura da palavra, uma vez que é decisiva para a formação do campo lingüístico, para o aperfeiçoamento do raciocínio lógico, da capacidade de interferir, com mais firmeza, no mundo atual, através de um embasamento teórico mais sólido, capaz de fazer valer as próprias argumentações. Esse ponto de vista passa por um processo que engloba três diferentes momentos, sendo eles: o reconhecer, em que se realiza uma leitura parcial e seleciona o que é mais importante; o analisar, que se refere è leitura profunda de um determinado texto ou contexto e o sistematizar, o qual diz respeito à escrita, ou melhor, a evidente demonstração do ponto de vista – resultado do desenvolvimento dos dois processos (elementos) anteriores. Os mecanismos básicos do ponto de vista são a compreensão e a formalização, sendo que o meio de comunicação de massa e o cotidiano são os agentes formadores.

Quando se fala de formação discursiva, defini-se a expressão do ponto de vista, buscando sempre a autenticidade, a expressão de interesses, a fim de não se deixar levar por discursos já prontos, os quais permeiam a sociedade. A formação discursiva nasce de uma necessidade, pois cada pessoa precisa saber defender o próprio ponto de vista, caso contrário poderá ser excluída de uma grupo social ou ser submetida a aceitar, passivamente, todas as imposições feitas por aqueles que se consideram “os donos do poder.” Essa formação procura, também, fazer crer, ou melhor, fazer com que os outros acreditem na tese e defesa colocadas em discussão, convencer que os argumentos explicitados são válidos e reais.

Reportar-se ao texto dissertativo é, acima de tudo, entendê-lo como uma forma de revelar o ponto de vista de quem o produz, de forma convincente, ou seja, trata-se de usar a palavra para argumentar e não somente para agradar. Entretanto, o que se encontra na comunidade acadêmica é um grande número de alunos que desconhece a existência do texto dissertativo e seus benefícios. Também não é cultivada a prática da pesquisa, uma atividade que requer análise de um tema, várias leituras, sistematização de dados a fim de oferecer um ponto de vista claro a respeito do mesmo. Texto dissertativo e pesquisa caminham paralelamente para uma formação mais sólida e real do ser humano. Contudo, não é somente na dissertação que se identifica um ponto de vista crítico do produtor, pois mesmo em textos narrativos e descritivos o ponto de vista ou opinião se fazem presentes, explícita ou implicitamente. A dissertação expressa, de forma explícita, ou seja, mais objetiva, sua opinião ou julgamento utilizando conceitos e elaborando a crítica.

Para que o ponto de vista tenha real aceitação num texto escrito, é preciso que haja a exatidão do pensamento, a fim de não criar ambigüidade a falsas interpretações. Por isso, defende-se o escrever bem, qualidade na comunicação, ou melhor,  tornar o seu pensamento conhecido de outro, tornar comum aos outros o seu pensamento. Acima de tudo, o destinatário precisa ser estimulado ou persuadido, a produzir uma resposta, ou seja, posicionar-se diante do que lê. Porém textos sem muita significação, clareza e objetividade são muito comuns. Pode-se afirmar que são produzidos falsos textos, isto é, uma falsa escrita, uma vez que não há o prazer no pensar, para então descobrir o desejo pela escrita, eliminando as terríveis reproduções de palavras. Escrever não é símbolo da aplicação pura de técnicas e de teorias. Cada ser humano possui uma história de vida, experiências múltiplas como ser atuante no mundo e essas devem ser entendidas como focos centrais para um encontro com o desejo pela escrita: a magia de descobrir-se, de revelar-se como pessoa capaz de transmitir seu posicionamento diante dos fatos do mundo. Se o ponto de vista é necessário para que os homens  sejam aceitos no meio em que vivem, para que a escrita tenha o poder de convencer o destinatário, e também de grande importância que quem escreve esteja, constantemente, se questionando a respeito de sua própria existência e do mundo que o cerca. Aquele que busca a evolução pessoal, diariamente, não dispõe de respostas absolutas acerca de seu mundo e de suas futuras experiências. O mesmo ocorre com o ato de escrever, com o desejo de se imortalizar através das palavras. Esse ato tem como meta principal a auto-afirmação, pois pessoas que ainda se submetem a reproduzir discursos ficam relegadas à opressão, à comodidade e à espera de ordens.

Então, como escrever sem ter um ponto de vista ou sem conhecimentos prévios sobre um determinado assunto? Com certeza, escrever não é somente aplicação de técnicas. É preciso muito mais. Comprometimento com leitura atuais e aquisição do ponto de vista são primordiais para se desenvolver a escrita da palavra. Não é viável fazer teoria ao se escrever, mas servir-se dela, para que haja a efetivação de uma prática mais evidenciada. A busca incessante pela auto-afirmação é o principal caminho para que se processo o desenvolvimento humano. Porém, é avassalador constatar que alunos que trabalham constantemente com a própria língua não possuem domínio do desempenho lingüístico na modalidade da escrita. Realmente é absurdo fornecer informações para  tratamento e descrição de um objeto não identificado, no caso um texto.

Dessa forma, pode-se afirmar que linguagem e pensamento, escritura e leitura possuem uma ligação de sensibilidade, intuição, imaginação criadora a caminho do desvendamento do mundo, da construção do sujeito no mundo. “Quando escrevemos, estamos interpretando, estamos ‘lendo’ algum aspecto do mundo dos outros, do eu no mundo, do eu nos outros e com os outros que vamos esboçando.” (Barbosa, 1991:32)

Enfim, o ponto de vista é manifestado por um indivíduo a partir do momento em que ele se reconhece como o dono de sua própria personalidade, quando ele reconhece que tem a capacidade de se descobrir, uma vez que se liberta dos “falsos envolvimentos gerados pela persona (máscara que impossibilita a revelação do próprio eu).” (Sales, 1992:78). Quando a pessoa descobre o real significado da língua, quando se desvincula do medo de expor suas idéias opiniões, deixando de imaginar as possíveis punições, enfim, quando descobre uma visão de mundo diferente da elaborada até então, consegue, paulatinamente, fazer da escrita da palavra, uma forma de demonstrar e defender o próprio ponto de vista.

 

4. O texto dissertativo de caráter científico: a sua importância

 

Trabalhar com argumentação, conteúdos de verdade, exposição racional do ponto de vista, bem como com a realidade dos fatos são algumas atividades básicas que marcam o desafio de produzir um texto dissertativo de caráter científico,  que se reflete no texto acadêmico. Utilizar métodos científicos para produzir um texto significa um compromisso com a verdade, com a lógica, com a qualidade do discurso realizado, a fim de formar cidadãos críticos e comprometidos em trabalhar cientificamente as mais diversas áreas do saber.

As conquistas e evolução da razão humana evoluem ao passo que se apresentam novas exigências de objetividade, clareza, raciocínio, argumentação, provas, evidências, justificativas racionalmente coerentes etc. Porém, é necessário que os indivíduos não se submetam tão somente a receber e armazenar informações, mas também saibam produzir conhecimento enquanto se posicionam como ser social e político no meio em que vivem. As capacidades de atuação do homem em sociedade passam a se evidenciar no momento que a ação de conhecer passa ser atividade constante, originando, então, os atos de discutir e divulgar conhecimentos. É nesse âmbito que reside a importância de se trabalhar com o texto dissertativo de caráter científico.

Muitas são as características que evidenciam a natureza dessa tipologia textual. Para proporcionar um conhecimento mais claro a respeito do mesmo, faz-se importante elencar alguns fatores que fazem, dessa produção, um texto científico. O espírito crítico é um dos primeiros desafios que deve se fazer presente no produtor desse texto, uma vez que através dele é possível entender a realidade da forma mais objetiva possível, para posteriormente analisá-la, criticá-la, enfim, posicionar-se diante dos fatos de maneira crítica. O espírito crítico visa proporcionar um compromisso com a transformação da realidade. A busca do sentido da prova é uma forma de tornar válida as afirmações a respeito de algum assunto. Para isso é preciso que haja segurança e suficiente fundamentação para se defender uma tese proposta num texto científico. Muito importante é que as próprias afirmações e descobertas sejam colocadas em discussão, em debate, a fim de serem permanentemente avaliadas. Contudo, deve existir uma disposição necessária no ser para mudar os posicionamentos e ponto de vista, desde que se mostrem inválidos e inconscientes.  Estar aberto às mudanças é uma forma de se comprometer em trabalhar com a realidade, em estar buscando, constantemente, a manutenção, veracidade e atualização de verdades e interesses, para que não se prenda ao dogmatismo, o qual é característica oposta ao trabalho científico. O sentido da prova  vem a ser, portanto, a expressão da realidade, a qual é útil à humanidade. O conhecimento caracterizado pela falta de prova, carece de fundamentação, de força de objetividade. Não utilizando de sentido da prova cada indivíduo pode entender a realidade como bem queira ou entenda, como os próprios interesses impõem, generalizando-se as afirmações sobre um determinado assunto, de forma a fugir da objetividade. Para melhor explicitar o que seja o dogmatismo, citado anteriormente, e que caracteriza uma oposição ao trabalho científico, vale fazer algumas colocações. Quem se guia pelo espírito crítico opõem-se ao dogmatismo. Este faz com que o sujeito se apegue de forma exagerada às próprias afirmações e pontos de vista, desprezando o debate, a reflexão e até mesmo a refutação daquilo que pensa e afirma. As razões não interessam, mesmo que sejam evidentes, pois é muito mais cômodo impor o próprio modo de ver e de viver aos outros. O dogmatismo reflete a incapacidade de ver e interpretar a realidade de forma diversificada da indicada pelos esquemas, interesses, valores, conveniências pessoais, bem como a tentativa de impor esses valores e interesses aos outros. É essa forma errônea de se posicionar diante da realidade que origina pessoas, alunos silenciados e impedidos de desenvolver seu senso crítico, pois sempre há alguém que se julga o dono de todo o saber, não proporcionando aos demais uma liberdade de expressão, uma busca pelo conhecimento científico. Dessa forma, muitos e muitos alunos, jovens e mesmo adultos apresentam grande dificuldade em produzir um texto dissertativo de caráter científico, uma vez que não foram estimulados a se posicionar de forma crítica diante da realidade. Para evidenciar a atividade científica nessa tipologia textual, é também necessário possuir muita firmeza nas afirmações, ou melhor, não deixar se levar por falsas informações, as quais não transmitem razões sérias e convincentes de ser;  mas defender o ponto de vista  fundamentado em verdades evidenciadas e anteriormente comprovadas. Ter firmeza é não ser intransigente, mas se posicionar de forma clara e objetiva diante do que se está defendendo. Orientar-se pelo senso de realidade, é outro fator que deve conduzir o sujeito para uma abertura à realidade, tendo a disposição constante de apreendê-la como ela realmente se apresenta. O senso de realidade pode ser entendido como um momento dialético, discussão com os fatos que são apresentados e que marcam a realidade, um esforço que deve fazer o sujeito manter constante sua abertura aos fatos reais, não impondo, contudo, seus esquemas à realidade. Deixar-se guiar pela humildade é reconhecer que nem sempre as hipóteses levantadas sobre algum assunto são consideradas válidas e suficientemente convincentes, ou seja, é ser capaz de reconhecer que a realidade é, de fato, diversa daquilo que se imaginava que ela fosse.  É preciso humildade  para que o sujeito, enquanto produtor de um texto científico, esteja, constantemente, aberto a apreender o que a realidade evidencia. Outra característica que deve guiar esse produtor, bem como qualificar essa produção textual, é o agir corajosamente em busca de mudanças e transformações sociais, realizando uma avaliação crítica do seu modo pessoal e social de viver, a fim de refletir no texto científico  um expressão autêntica do próprio conhecimento. Também o agir com capacidade de comunhão  faz com que o sujeito possa se engajar ativa e criticamente no processo de conhecimento, apresentando uma abertura e união aos demais conhecedores da realidade, em busca das verdades. Posicionar-se de modo questionador e criativo diante dos fatos, demonstra que nenhuma atividade é capaz de desvelar a totalidade, mas um aspecto da realidade estudada, o qual evidencia um ponto de vista – uma interpretação da realidade.  Para isso, é muito importante que, ao se produzir um texto científico, possa se agir com perseverança e tenácia, a  fim de estar sempre pesquisando sobre a realidade dos fatos, tornando o senso comum em conhecimento científico, capaz de desvendar mentiras e  falsas argumentações, as quais vêm descaracterizar essa forma de comunicação escrita.

Além de todos esses fatores que marcam o texto dissertativo científico, há um critério de cientificidade  bastante aceito e necessário: o da discutibilidade, o qual é entendido como característica formal e política ao mesmo tempo. Só pode ser científico aquilo que proporciona discussão. Portanto, no aspecto formal, o texto dissertativo deve ser lógico, sistematizado, apresentar como competentes termos instrumentais e inteligíveis, não ser confuso, indeterminado; mas permitir que haja compreensão da realidade, devendo ser criativo, voltado a desvelar fatos reais. Um discurso científico deve apresentar, sempre, coerência entre as partes que o compõem, estarem diretamente ligadas desde a exposição da tese até a colocação das conclusões. Deve haver consistência, isto é, atualidade das argumentações que justificam a tese defendida, apresentando a capacidade de resistir às argumentações contrárias; haver originalidade por parte do sujeito que produz o texto, a fim de não somente verbalizar – somente repetir palavras e idéias – mas também colocar, com clareza, o próprio ponto de vista e, por fim, deve haver a objetivação, para controlar a ideologia que  permeia a ciência. A caracterização do texto dissertativo de caráter científico acontece especialmente devido à intenção de quem produz o enunciado, de forma que o sujeito utilize a impessoalidade para evidenciar o assunto em discussão, trabalhando, assim, com a objetividade. Isso significa que há a neutralização da pessoa do discurso pelo uso da terceira pessoa do singular. Porém isso não demonstra que o texto é neutro, pois o produtor revela o seu modo de ver o mundo e a sua maneira de abordar o tema, porém utiliza do recurso lingüístico – neutralidade – para revelar verdades evidenciadas e não somente o que ele próprio julga ser verdadeiro. Para a produção de texto científico de qualidade pode-se citar alguns, entre tantos outros pontos, os quais  não podem ser evidenciados em sua estrutura. Declarações de intenção, ou seja, demonstrar raciocínio falso; repetições – é preciso ter um esquema lógico e fluente; modéstia, ou melhor,  acreditar que o trabalho desenvolvido não tem importante valor para determinada área do conhecimento; antificientificismo – nada é real, tudo é construção, pois se trabalha com verdade já evidenciadas; elogio do fragmentário – acreditar que não se pode interpretar algum assunto, pois não há um conhecimento da totalidade e explicação do óbvio, ou seja, tornar redundante as argumentações. Vale lembrar que, para se tornar viva e concreta a criação de um trabalho científico desse porte – o texto – faz-se necessário comunicar, divulgar aquilo que se descobre e se produz com a atividade de produção científica. Fazer com que os conhecimentos existentes nesse texto cheguem até os mais diversos interlocutores, a fim de que se possam, talvez, atender às necessidades e curiosidades de tantos que precisam e querem receber informações para se aperfeiçoarem enquanto seres atuantes do meio em que vivem. Se o critério  mais aceito da cientificidade é a discutibilidade, nada mais justo que provocar discussões a respeito do conhecimento produzido através do texto científico junto aos mais diversos receptores, principalmente aqueles interessados em contribuir para o desenvolvimento da ciência.

Portanto, pode-se observar que a palavra, num texto dissertativo de caráter científico, deve ser entendida como comunicação da realidade, uma vez que deve guardar íntima relação de fidelidade aos fatos reais. Apesar de se valorizar a linguagem correta, clara, objetiva, a logicidade, a coerência da comunicação, sua exatidão entre tantos outros fatores, não se pode ressaltar, tão somente, a importância instrumental desse texto,  pois alienado e apegado aos valores instrumentais, o produtor do texto pode ser tornar facilmente manipulável e dominado por aqueles que possuem o poder da palavra. Para que isso não ocorra, o texto dissertativo científico deve caminhar paralelamente à desocultação da realidade, a qual ocorre, principalmente, através do processo contínuo de leitura, capaz de fornecer ao homem um grande poder de argumentação, de conhecimentos e de entendimento sobre o mundo que o cerca. Dessa forma, um texto científico requer uma análise criteriosa da tese apresentada, para que sua defesa ocorra de forma coerente, convencendo que há fundamento naquilo que está abordando. Nesse caso, a razão é a grande responsável pela caracterização desse texto, dando-lhe o caráter objetivo e o aspecto impessoal, os quais estão diretamente ligados  à cientificidade. 

Se a universidade pensar que seu compromisso não é só com o ensino, mas também com a pesquisa, perceberá que é vital o contato com o texto dissertativo de caráter científico, pois é através dele que os discentes  emitirão seu ponto de vista, comprovarão suas  teses, enfim, darão um tratamento mais maduro aos seus dados.  Assim, pensar pesquisa é pensar dissertar cientificamente.

 

5. Para além da prática pedagógica

 

Pensar em educação como sinônimo de autoristarismo, submissão, repreensão e fixação de regras já se tornou uma concepção errônea, totalmente desvinculada da prática social exigida nos dias modernos. Visando reverter esse quadro e esperando desmitificar o processo ensino-aprendizagem, no tocante à produção de textos dissertativos de caráter científico, faz-se necessário que alunos pertencentes aos cursos de licenciatura adquiram conhecimentos claros, objetivos e estimuladores a respeito dessa tipologia textual, para que possam trabalhar nessa área do conhecimento humano, de forma mais eficaz, junto aos alunos dos demais níveis de ensino.  Essa preocupação em relacionar teoria e prática remete ao espaço escolar e é nele que se deve observar a questão da produção de textos, conceitos, preconceitos e também mudanças.

O principal papel da escola[6], enquanto instituição, é desenvolver o processo de socialização e não somente ser conservadora, ou melhor, reproduzir os aspectos social e cultural como garantia de sobrevivência em sociedade. O equilíbrio nas sociedades, quanto nas escolas, requer tanto a conservação quanto a mudança. Nesse processo de socialização, compete à escola formar, preparar alunos para o mundo atual, o qual exige criatividade, sabedoria e muita agilidade. Não se refere aqui, somente, ao processo de desenvolver conhecimentos, habilidades, idéias e capacidades formais, mas também preocupar-se com a formação de atitudes, interesses e formas de comportamento, prioridades estas que devem se ajustar às necessidades e exigências de vida de cada um. Também, enquanto responsável no processo de socialização, a instituição de ensino, deve formar cidadãos para a intervenção na sociedade, a fim de que não se tornem indivíduos passivos diante dos fatos que ocorrem diariamente a sua volta. É preciso, também, verificar, continuamente, o modo de relação que os alunos estabelecem com o processo ensino-aprendizagem, a fim de compreender o grau de alienação ou autonomia dos estudantes quanto a seus próprios recursos de produção e capacidade de comunicação no meio escolar. Dessa forma, torna-se mais fácil entender a postura do aluno diante das relações sociais e das exigências e desafios a ele solicitados. “Viver na escola, sob o manto da igualdade de oportunidades e da ideologia da competitividade e meritocracia, experiências de diferenciação, discriminação e classificação, como conseqüência do diferente grau de dificuldade que tem para cada grupo social o acesso à cultura acadêmica, é a forma mais eficaz de socializar as novas gerações na desigualdade.” (Gomez; Sacristan, 1998:21). Se isso realmente ocorrer no âmbito da escola, não será possível o empenho da mesma no que diz respeito ao binário reprodução e mudança.

Um outro desafio apresentado às instituições de ensino é a adoção de um currículo flexível, porém é um tanto complexo, pois exige diversidade, pluralidade metodológica e organizativa. É preciso que os alunos sejam respeitados nas diferenças, experiências, modos de vida, relação com o mundo e com o meio em que vivem , no ritmo de aprendizagem, no grau de dificuldade ou facilidade de entendimento, para que possam, paulatinamente, posicionarem-se e intervir, com relativa autonomia, na complexa trama social. Não se pode esquecer que é preciso respeitar as pluralidades de formas de viver, pensar e sentir, também estimular o pluralismo e cultivar a originalidade das diferenças individuais, pois estas é que caracterizam o valor humano e da atuação no meio social. É preciso “provocar e facilitar a reconstrução dos conhecimentos, atitudes e formas de conduta que os alunos assimilam direta e acriticamente nas práticas sociais de sua vida anterior e paralela à escola.” (Gomez; Sacristan, 1998:25). É necessário que a escola, enquanto instituição de ensino, proporcione debates abertos e racionais, que permitam aos educandos colocarem ou assumirem opções, sendo, assim, estimulada a pensar, fazer, comparar, ampliar diferentes propostas,  enfim mudar a sua limitada esfera de experiência e de conhecimento. Através de comparação e reflexão poderá substituir as pré-concepções por novas experiências. Educação, nesse caso, pode ser entendida como uma reconstrução da experiência.

A escola precisa facilitar e estimular a participação ativa e crítica dos alunos nas diferentes tarefas que se desenvolvem ali e que constituem o modo de viver da comunidade democrática de aprendizagem, uma vez que o educando, enquanto cidadão ativo do meio em que vive, necessita inovar a cultura – instrumentos culturais – para se desenvolver de maneira relativamente autônoma no complexo mundo atual. Portanto, essas são apenas algumas das muitas colocações referentes ao papel da instituição de ensino frente à formação do educando.

Para Heinig (1995:67-8), a escola pode mudar a imagem da produção textual, oportunizando sérias reflexões acerca dos elementos que constituem esse processo. Para o professor, o melhor é, na maioria das vezes, a receita, a solução. Mas quando o cardápio não varia, a monotonia e o enjôo tomam conta e a “refeição” tem aspecto de “outra vez”. Quando realmente se quer mudanças, é preciso correr riscos, deixar a onipotência e aventurar-se, pois juntos é possível construir o novo. O professor que ousa na busca da realização, primeiramente, atravessará estradas de dúvidas e angústias, para depois rasgar a mata e ver a clareira. Descobrir, como a própria palavra sugere, implica coragem, luta e paciência. Muitas vezes a surpresa é agradável e o encontro muito melhor do que uma simples receita, pois apresenta a marca da individualidade.

Muitos professores se angustiam por não verem os resultados imediatamente. É preciso permitir ao aluno a sua própria descoberta, respeitando a história e o ritmo de cada um. Pois a redação, de acordo com Bernardo (1985:19), não é um produto pronto e acabado, algumas são mais claras e compreensíveis do que outras. Alguns tentam explicar a diferença entre um texto e outro dizendo que esse aluno tem o dom e aquele não. Mas essa explicação não justifica. Na educação tradicional, os que não conseguem se adaptar aos padrões de clareza exigidos são punidos com a nota baixa e marcados com o selo da incapacidade. A punição faz com que esses alunos acreditem ainda menos no seu poder de expressão escrita, levando-os à conclusão de que nunca escreverão direito. Pode-se encarar esta maneira de explicar o problema como dogmática.

Enxergar o espaço escolar não como um lugar onde se exercita a escrita - aqui entendida como uma mera atividade de redação, limitada ao tema, ao tempo e, muitas vezes, ao número de linhas – mas como o que possibilita o contato com o escrever, movido por uma necessidade ou mesmo um desejo, ainda é um desafio.  A falta de razão para que se escreva e a ausência do leitor são velhas discussões, mas há que se refletir muito para perceber que a mudança se encontra muito mais nas reclamações e no pode ser do que na realidade da sala de aula. 

Isso remete a Geraldi (1997: 137)  que diz: “por mais ingênuo que possa parecer, para produzir um texto (em qualquer modalidade) é preciso que: a) se tenha o que dizer; b) se tenha uma razão para dizer o que se tem a dizer; c) se tenha para quem dizer o que se tem a dizer; d) o locutor se constitua como tal, enquanto sujeito que diz o que diz para quem diz  [...]; e) se escolham as estratégias para realizar  (a), (b), (c), (d).” 

Ter o que dizer, na nossa pesquisa, significa sair do exercício de escrita realizado como atividade escolar e colocar o educando em contato com razões suficientemente motivadoras para que possa se posicionar.  Afinal, posicionamento requer questionamento, reflexão e até subversão ao já posto.  Aluno com o olhar para além das linhas é aquele que não foi condicionado como o animal domesticado de circo, que deseja sempre receber uma recompensa.  Quem tem o que dizer não deseja agradar, mas prefere polemizar, levar seu ponto de ver e espera que seu posicionamento expresso em palavras escritas perpetue, cause impacto e até concordância.  Mas quem, no universo do já dito como e o que dizer, vai ousar?  Como, no espaço do façam isso dessa forma, (a homegeneidade que se insiste acreditar que está na sala de aula) deixar fluir a diferença e permitir que gêneros diferentes em temas diversos invada o espaço do papel e possibilite a motivação,  que o educador  diz muitas vezes não enxergar em sua prática.

A questão do interlocutor passa a causar problema especialmente no espaço da sala de aula.  Isso acontece pois não se tem, na grande maioria das vezes, um interlocutor real como se tem na família ou no grupo de amigos.  Ali se conta, reconta, discute, discorda.  No final, não há cobrança de texto escrito e a conseqüência maior pode ser um desentendimento.  Transportar o que se aprendeu no ambiente doméstico para outro, o da escola, provoca um impacto.  Se tem o que dizer e muitas vezes com justa razão, mas e o outro?  Quem é  aquele  que  ouve e lê?  Um enigma!  Pensar no interlocutor, talvez um mero receptor,  é necessariamente pensar na divisão ao meio do sujeito do texto.  Olha ele para si e seu desejo de dizer, sua razão mais íntima, sua incomodação, mas seu olhar se volta também para o outro que diz o que se deve dizer.  Comparando  com Sheakspeare,  ser eu ou ser o outro: eis a questão.

A impressão que se tem, nesse momento, é que o professor esqueceu toda a sua história pessoal e escolar.  Parece que nunca se sentiu ali, sentado, tendo que dizer e sem ter o quê.  É estranha a sensação de haver um outro que olha o que escreve na sua solidão total.  Essa angústia que ainda invade a vida de muitos de nós ( os que escrevem agora este texto e de você que nos lê) precisa ser repensada e, principalmente, trabalhada.  Pensar o momento de produção textual como a preparação da festa,  é o desafio que perpassa o trabalho com alunos de licenciatura e professores.

Assim, pode-se observar que é um desafio constante, nos dias atuais, realizar um ensino de qualidade, o qual esteja comprometido com as necessidades maiores dos alunos, principalmente aqueles que serão responsáveis pela educação.  A curiosidade, criatividade, pesquisa, aperfeiçoamento e dedicação são algumas das qualidades que devem nutrir os alunos dos cursos de licenciatura, como forma de impulso para que possam estar em constante processo de aperfeiçoamento humano, o qual possibilite um posicionamento mais claro, objetivo e crítico diante do mundo e, principalmente do ato de educar.

Portanto, pode-se afirmar que através do trabalho com textos dissertativos de caráter científico junto aos alunos dos cursos de licenciatura em nível de III grau, é possível despertar uma mentalidade mais crítica, comprometida com a realidade, a qual tem o objetivo maior de possibilitar um ensino acerca desses textos mais produtivo e animador junto aos alunos dos demais níveis educacionais. Dessa forma,  tornar-se-á mais fácil iniciar um trabalho que vise desmitificar uma atividade que reflete tão somente o comprometimento  com a própria língua escrita. Com professores informados, competentes e capazes de explorar os conhecimentos sobre o texto dissertativo, e aptos a instruírem seus alunos, com maior credibilidade, no tocante a essa produção textual, muitos cidadãos críticos poderão ser formados na busca do desvendamento de mentiras e ocultações que impossibilitam a atuação ativa e crítica no mundo atual.

 

6. Conclusão

 

Dois anos de pesquisa na FURB junto aos alunos dos cursos de licenciatura serviram para ratificar o pressuposto que motivou  essa pesquisadora e sua bolsista, hoje também pesquisadora,  a investigarem a situação da produção do texto acadêmico nessa instituição.  Muito mais que constatar que nossos alunos apresentam dificuldade e  falta de clareza para a produção desse tipo de texto, foi importante verificar que o ensino  fundamental e médio estão desconectados do superior.  É preciso urgentemente estender o fio e ligar a tomada que nos une a fim de que a pesquisa e o ensino se completem num trabalho de extensão.  Se não tentarmos alterar esse processo já no início da aprendizagem da língua escrita, certamente sempre estaremos  retomando as dificuldades  e preenchendo as lacunas deixadas, buscaremos os culpados, identificaremos os problemas.  Mas quem indicará as soluções?

Eis aí o nosso maior objetivo, buscar dar respostas aos discentes para que eles saiam da universidade mais seguros quanto ao ato de dissertar e possam alterar a realidade que vai além dos limites que cercam a universidade.    Esse é verdadeiramente o objetivo de nossa pesquisa:  oferecer  orientação aos acadêmicos para que eles próprios possam detectar os principais problemas no tocante ao ensino-aprendizagem do texto dissertativo de caráter científico e possam, analisando a sua realidade, oferecer soluções.

Se conseguirmos alcançar esse objetivo, parcial ou integralmente, estaremos traçando um outro caminho  pelo qual trilharão os futuros alunos.  Não precisaremos mais ensinar a produzir um texto dessa natureza, como fizemos durante os cursos oferecidos, mas sentaremos para discutir a realidade que envolve esse tema e pensarmos outras pesquisas.  Afinal, é para isso que investigamos, que nos envolvemos no processo de pesquisar:  desejamos um outro terceiro grau.

 

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Notas


[1] Em Língua e liberdade o autor faz uma análise dos problemas que giram em torno do ensino da gramática e inclui uma parte que aborda as inutilidades e nocividades de um ensino fragmentado.

[2]  Em Problemas de redação, encontra-se uma análise de textos de vestibulandos .  Nela o autor agrupa  os principais problemas detectados em quatro grupos de ocorrência:   1) problemas na constituição da oração; 2) problemas no estabelecimento da coesão textual; 3) problemas em relação às normas da escrita fixadas pelo português padrão; 4) problemas relacionados à argumentação, especificamente no que se refere à utilização de noções confusas e do lugar comum.

[3] Em sua obra,  Factual writing (1990), Martin discute o papel crítico assumido pela escrita factual no Ensino Fundamental. Ele destaca que os alunos são encorajados principalmente a recontar experiências pessoais e copiar de livros-textos e materiais de biblioteca. O efeito debilitado desse tipo de educação, longe de se dar importância aos gêneros textuais que circulam na sociedade, é alvo de críticas substanciais.

[4] Esta é uma das autoras que compôs a obra Cenas de aquisição da escrita e é responsável pelo capítulo intitulado Emergência do estilo, o qual faz uma abordagem acerca da construção do estilo nas produções escritas de alunos.

[5] O conceito de ponto de vista foi formulado a partir das idéias apresentadas por  CITELLI, Adilson em O texto argumentativo.

[6] As idéias aqui apresentadas são também fruto de uma análise crítica do conteúdo exposto na seguinte obra: GOMEZ, Perez; SACRISTAN, J. Gimeno. 1998. Compreender e transformar o ensino. 4.ed. Porto Alegre: Artmed.

 

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