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A  ESCOLARIDADE  E  A  FAIXA  ETÁRIA:

IMPLICAÇÕES  NA  SENSIBILIDADE  LINGÜÍSTICA

 

Regina  Celi  Mendes  Pereira

( Universidade  Federal  da  Paraíba )

 

Resumo: Apresentaremos  neste  trabalho  os  resultados  de  nossa  pesquisa  desenvolvida  em  João  Pessoa – PB. Usamos  o  corpus   do  Projeto  Variação  Lingüística  no  Estado  da  Paraíba ( VALPB ) que  é  composto de sessenta informantes estratificados  em relação  ao  sexo , idade  e  escolaridade .Objetivamos  mostrar a  influência  que  as  variáveis  não estratificadas -  mass mídia , sensibilidade  lingüística  e  mercado  ocupacional -  desempenham  na  caracterização  social  do  corpus.

Palavra-chave: Variação; língua; social; variantes .

                                                                             

1. Introdução

 

O   Projeto  Variação  Lingüística  no  Estado  da  Paraíba  ( VALPb )  tem  sido  usado  como  suporte  na  elaboração de  inúmeros  trabalhos  de  natureza  fonológica , sintática , morfológica  e  textual , dentro  da   perspectiva  de  análise  variacionista . A  partir  do  estudo  do  corpus  do  VALPb  foi  possível  traçar  um  perfil  da  fala  do  pessoense, determinando  seus  aspectos  linguísticos  mais  marcantes .

Constatou-se , no  entanto , que , enquanto  se  alcançava  o  objetivo  de  traçar  um  perfil  da  fala  do  pessoense , tornava-se  necessária  uma  caracterização  do  perfil  social  desse  falante .

Por essa  razão , a  partir  de  um  projeto  individual  de  pesquisa , desenvolvido  na  UFPB , buscamos  uma  caracterização  social  mais  minuciosa  dos  falantes , procurando relacioná-la  com  as  características  lingüísticas  da  fala  dos  mesmos. Com  essa  finalidade, preocupamo-nos  em  ampliar  o  quadro  das  variáveis  sociais , estendendo-o  a  um  conjunto  de  fatores que , embora  de  difícil  mensuração  objetiva , são  importantes  para  a  determinação  do  uso  que  o  indivíduo  faz  da  língua.

 

2. Perspectiva  Teórica

 

Tomando-se  por  base  os  estudos  lingüísticos  de  cunho  variacionista  desenvolvidos  pelo  PEUL ( Programa  de  Estudos  sobre  o  Uso  da  Língua ) , acredita-se  que  fatores  como  sensibilidade  lingüística , inserção  no  mercado  ocupacional , exposição  aos  meios  de  comunicação ( mass  midia ) e  renda  estejam  correlacionados  a  variantes  lingüísticas  de  natureza  diversa . 

Naro (1981) ressalta  que  , apesar  de  as  categorias  sociais  como  sexo , idade , nível  sócio-econômico  e  escolaridade  serem  aparentemente  mais  atuantes , existem outros  fatores  sociais  que  têm  demonstrado  influência  em  alguns  fenômenos  variáveis  como  a   posição  do  falante  no  mercado  de  trabalho  e  sua  integração  com  a  mídia ( televisão , imprensa , etc.) . Essa  mesma  hipótese  será  adotada  em  nosso  trabalho  onde  controlaremos  a  influência  que  essas  variáveis  exercem  sobre  o  desempenho  lingüístico  do  falante .               

 

3. Descrição  do  corpus  e  metodologia  utilizada

 

O  Corpus  do  Projeto  é  composto  de  60  informantes , 30  homens  e  30  mulheres , estratificados  de  acordo  com  anos  de  escolarização  e  faixa  etária , conforme  a  descrição  a  seguir:

 

3.1 . Variáveis  estratificadas :

Escolarização -

Analfabetos  ( N ) – nenhum  ano  de  escolarização /  Primários      ( P ) _ 1  a  4  anos

Ginasiais       ( G ) _ 5  a  8  anos   /                          Secundaristas  ( S ) _ 9  a  11  anos

Universitários  ( U ) _ mais  de  11  anos

Faixa  etária - J (jovens)15 a 25 anos  / A (adultos) 26 a 49  anos / V( mais  velhos ) 49  em  diante

Os  informantes  foram  selecionados  aleatoriamente , mas  de  maneira  a  representar  os  vários  segmentos  da  sociedade  pessoense : moradores  de  favela , dos  bairros  de  periferia , do  centro , e  da  orla  marítima .

As  gravações  foram  realizadas  na  residência  dos  informantes , com  duração  média  de  sessenta  minutos  cada . Os  entrevistadores  conduziram  a  entrevista  de  modo  a  levar  os  informantes  a  falar  livremente  sobre  temas  variados  e  relatar  fatos  de  natureza  pessoal , objetivando assim , interferir  o  menos  possível  no relato dos entrevistados , tentando , com isso, evitar o que Labov ( 1972 ) descreve  como  o  paradoxo  do  observador . No  total , foram  examinadas  cinquenta  e  quatro  horas  de  gravação . No  caso  específico  de  nossa  pesquisa , fizemos  um  recorte  nas  entrevistas , examinando  especificamente  as  respostas  das  perguntas  relacionadas  às  variáveis  não estratificadas , descritas  a  seguir .

Essas  entrevistas  gravadas  foram  transcritas  com  base  no  sistema  de  transcrição  do  Programa  de  Estudos  Sobre  o  Uso  da  Língua  ( PEUL) – UFRJ , e  atualmente  se  encontram  armazenadas  no  banco  de  dados  de língua  falada  da  cidade  de  João  Pessoa .

            

3.2. Variáveis  não estratificadas : sensibilidade  lingüística , exposição  aos  meios  de  comunicação  e  inserção  no  mercado  ocupacional .

       

De  acordo  com  Silva (1996) as  variantes  linguísticas  diversas  podem  estar  correlacionadas   a  variáveis  de  natureza  mais  sutil  do  tipo  sensibilidade  linguística , inserção  no  mercado  ocupacional , exposição  aos  meios  de  comunicação ( mídia )  e  renda [1].

A  sensibilidade  lingüística  é  caracterizada  em  termos  do  grau  de  consciência  do  falante  em  relação  à  diversidade  lingüística  e  de  sua  atitude  em  relação  a  essa  diversidade .

Os  meios  de  comunicação de massa ( mass  midia )  exercem  uma  grande  influência  sobre  o  comportamento  dos  falantes , condicionando-os  também  no  que  se  refere  à  performance  lingüística . Com  o  estudo  dessa  variável , objetiva-se  testar  se  a  maior  ou  menor  exposição  à  mídia  influencia  de  alguma  forma  o  uso  de  determinadas  variantes  lingüísticas .

Entende-se  por  mercado  ocupacional  a  correlação  entre  o  tipo  de  atividade  profissional  desenvolvida  por  uma  pessoa  ao  longo  de  sua  vida  e  a  necessidade  do  uso  de  formas  lingüísticas  de  prestígio .  Com  o  estudo  dessa  variável , pretende-se  verificar  se  existe  uma  correlação  diretamente  proporcional  entre  uso  de  formas  lingüísticas  consideradas  corretas  e  atividades  profissionais  que  requisitam  o  uso  de  tais  formas.

 

4. Metodologia  da  mensuração

 

Para  verificação  das  variáveis  não  estratificadas – mercado  ocupacional , sensibilidade  lingüística  e  mídia  -  adotamos  o  modelo  metodológico  utilizado  por  Silva (1996 )  que  consiste  na  codificação  dessas  variáveis  a  partir  de  dados  fornecidos  pela  ficha  social  do  informante, complementados  com  informações  obtidas  nas  entrevistas .

De  modo  geral , o  procedimento  previsto  a  ser  utilizado  para  a  abordagem  destas  variáveis  consiste  na  classificação  dos  falantes  adultos  da  amostra  estudada  de  acordo  com  três  possibilidades : alta  ou  forte ; baixa  ou  fraca ; e  média , relativamente  a  muita , pouca  ou  não  acentuada  presença  da  variável . Em  seguida,realizamos o cruzamento  das  variáveis  não  estratificadas  com  as  variáveis  estratificadas , a  fim  de  detectar  possíveis  enviesamentos .   

        

5. Análise  das  entrevistas

 

Optamos por apresentar , neste evento , apenas a  análise  do  cruzamento das variáveis,descrito  na  letra  B  acima ,  já  que  este  representa  analiticamente  a  ocorrência  das  variáveis  retratadas  na  letra  A .

Formulamos  algumas  hipóteses  que  se  desfizeram  à  proporção  que  fazíamos  os  cruzamentos. Uma  delas  se  refere  à  exposição  aos  meios  de  comunicação , onde  pudemos  constatar  que  esse  fator  isoladamente  não  interfere  na  caracterização  da  fala  do  indivíduo . Existe, na  verdade, uma  estreita  relação  entre  a  escolaridade  e  a  exposição  à  mídia . Quanto  mais  escolarizado , mais  seletivo  se  torna  o  falante ,  levando  essa  exposição  a  se  transformar  em  conseqüência  e  não  em  causa  de  um  processo. Observamos , também , (o  que  já  era  previsível ),  que  de  um  modo  geral  as  mulheres  se  expõem  mais  aos  meios  de  comunicação ( televisão  e  revistas de  TV) do  que  os  homens.

Da  mesma  forma , a  variável  escolaridade  determina  o  grau  de  sensibilidade  lingüística : são  os  universitários , representantes  das  três  faixas  etárias ,  que  demonstraram  uma  maior  conscientização  em  relação  às  características  da  linguagem.Reconhecem  as  variações  diatópicas , diastráticas , diafásicas , e  conseguem  associar  o  modo  de  falar  ao  desempenho  lingüístico : pronúncia  e  emprego  correto  das  palavras , boa  dicção ,  expressividade , boa  entonação  e  fluência . Alguns  aspectos  interessantes  foram  observados  no  cruzamento  dessas  duas  variáveis . Os  falantes  de  menor  escolaridade - (N) – reconhecem  unanimemente  que  falam  errado  e  que  gostariam  de  ter  estudado  mais  para  melhorar  seu  desempenho . No  entanto , associam  o  modo  de  falar  à  características  físico-articulatórias  da  fala  e  à  traços  da  personalidade , tais  como : afasia , altura  de  voz , velocidade , ritmo , honestidade , sinceridade , autenticidade , corretude , timidez  e  grosseria . Essa  mesma  tendência  será  registrada  no  grupo (P)  masculino. Constatamos  também  que  as  mulheres  da  faixa  etária  ( V ) , inseridas  em  qualquer  nível  de  escolarização  apresentam  mais  essa  tendência  de  confundir  modo  de  falar  com  modo  de  agir .

De  modo  geral , os  falantes  de  faixa  etária  superior  não  demonstram  interesse  em  falar  melhor . Infere-se  que  esse  desinteresse  seja  decorrência  de  falta  de  aspiração  pessoal  e  profissional .Esse  grupo  revela  resignação  e  acomodação  com  seu  desempenho  lingüístico . Por  outro  lado , são  os  mais  jovens  de  qualquer  grupo  , os  mais  desejosos  em  aperfeiçoar   a   maneira  de  falar  . Justamente  por  se  tratar  de  uma 

faixa  etária  que  mais  apresenta  possibilidade  de  projeção  social .   

Ainda  em  relação  à  sensibilidade  lingüística , constatamos que  90%  dos  entrevistados , independente  de  sexo , idade  e  escolaridade , tem  consciência  das  diferenças  lingüísticas   na  fala  dos  brasileiros , apontando-a  como  decorrência  das  diversidades  regionais . Também  indicam  o  “sotaque”  como  a  marca  mais  perceptível  entre  os  falares , seguida  pelas  variantes  lexicais . Finalmente , outro  aspecto  que  nos  chamou  a  atenção , mas  que  não  foi  controlado ,  diz  respeito  ao  fato  de  que  a  religião , entre  os  menos  escolarizados , interfere  no  desempenho  lingüístico . Os  evangélicos  tendem  a  se  preocupar  mais  com  a  forma  de  falar .

A variável  mercado  ocupacional  também  é  afetada  pela  escolarização . Os  entrevistados  que  apresentaram  a  maior  cotação  nesse  quesito  foram  os  universitários, excetuando-se , logicamente , os  já  aposentados . No  entanto , foi  possível  constatar   como  é  forte  a  influência  do  contexto  social  na  performance  do  falante . Registramos  a  ocorrência  de  uma  empregada  doméstica  que  por  conviver  com  pessoas  mais  escolarizadas ,  demonstrou  desempenho  lingüístico  superior  ao  esperado  de  sua  categoria .

Enfim , podemos  concluir  que  na  caracterização  do  perfil  social  do  corpus  VALPB  as  variáveis  não  estratificadas  sensibilidade  lingüística , exposição  à  mídia  e  mercado  ocupacional  recebem  a  influência  direta  da  variável  estratificada  escolarização . Por  outro  lado , a  faixa  etária  e  sexo  não  provocaram  enviesamentos  muito  significativos , uma  vez  que  só  pudemos  constatar  implicações  dessas  variáveis  no  que  se  refere  à  sensibilidade  lingüística  no  grupo  feminino  de  faixa  etária  superior . Essas  mulheres , talvez  por  permanecerem  mais  tempo  em  casa  e  não  estarem  inseridas  em  um  contexto  social  produtivo , têm  menos  consciência  dos  aspectos  lingüísticos  envolvidos  na  fala .       

 

Referências bibliográficas

 

BOURDIEU , Pierre .1987. A    economia  das    trocas    simbólicas  . 2   ed. .   São  Paulo: Perspectiva , pp. 99-154.

LABOV , William .   1972.    Sociolinguistic    Patterns  .    Philadelphia :    University    of Pennsylvania   Press , . pp. 204 - 263 .

SILVA , Giselle  M. de  O .  e .  &   PAIVA ,  Maria  da  Conceição   A .  de . 1996 .. Visão de   conjunto   das     variáveis      sociais .   Padrões     Sociolingüísticos -   Análise    de fenômenos    variáveis  do  português  falado  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro  ( Giselle M. de  O . e  Silva    &   Maria  Marta  P. Scherre    orgs. ) .  Rio   de    Janeiro:   Tempo Brasileiro ,  pp. 369 - 371 - 373 .

 

Notas


[1] Decidimos  não  inserir  a  análise  dessa  variável , uma  vez  que  percebemos o  desconforto  causado  por  essa  pergunta   aos  entrevistados

 

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