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Uma proposta de abordagem do texto jornalístico na escola:

o trabalho com oficinas

 

Sonia Aparecida Lopes Benites

(Universidade Estadual de Maringá)

 

Resumo: Propõe-se um trabalho com a leitura do texto jornalístico em sala de aula, baseado no reconhecimento da subjetividade implícita e da ideologia presentes no texto, depreensíveis a partir da análise da organização do material verbal.

Palavra-chave: Oficina pedagógica; leitura; texto jornalístico.

 

1. Introdução

 

As propostas de reformas educativas feitas por especialistas nas duas últimas décadas enfocam, em um primeiro momento, aspectos quantitativos, incidindo sobre problemas como escolarização básica e extensão da oferta de educação formal a toda a população. Posteriormente, os aspectos qualitativos são colocados em primeiro plano, com ênfase na prática educativa e no papel do professor. Desde então, as pesquisas, experiências e políticas de programas têm-se voltado para a formação de professores.

O papel do docente hoje não se esgota na transmissão de conhecimentos, mas implica a condução de um complexo processo de ensino-aprendizagem. O professor apresenta-se como o agente que deve dirigir um processo dinâmico em que os alunos aprendam a construir seu próprio conhecimento e sua própria interpretação do mundo.

No trabalho com a língua materna, deseja-se que esse professor focalize a linguagem como forma de interação e a língua como um complexo de variedades, eleja o texto como unidade básica de trabalho e estabeleça como atividades fundamentais do ensino-aprendizagem de língua materna a leitura e a produção de textos. Espera-se que o docente respeite a variedade lingüística do aluno, priorizando o conhecimento que ele já tem ao entrar para a escola, valorize sua cultura e suas formas de expressá-la e de interagir com o mundo.

Essa concepção de ensino-aprendizagem de língua materna transcende os muros da academia, atingindo um público constituído de profissionais envolvidos com o ensino, incorpora-se às propostas curriculares feitas pelas secretarias de Educação de vários estados e, no final da década de 90, ganha uma versão oficial, de âmbito federal, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais.  

Verifica-se, porém, um descompasso entre essas teorias elaboradas na academia, durante anos, e a versão que assumem na prática cotidiana de professores dos níveis fundamental e médio de ensino. Pode-se afirmar que tanto os tradicionais planos de estudo voltados para a formação inicial do professor como aqueles usualmente voltados para a formação contínua estão em crise. Não basta mais reforçar os conhecimentos do professor: urge possibilitar-lhe o desenvolvimento  de um conjunto de competências, habilidades e atitudes que lhe permitam assumir o papel de guia desse processo interativo que constitui hoje o ensino e a aprendizagem.

No que diz respeito especificamente à língua materna, é preciso que o professor guie o aluno no domínio do mundo da escrita, através de atividades ligadas a uma prática social construída histórica e socialmente e que implica a atribuição de sentidos também ao não dito, aos implícitos. 

Para tornar-se um leitor competente, é imprescindível que o estudante seja posto em contato com uma variada tipologia textual, e que seja convidado a refletir sobre a modalidade de língua utilizada em cada caso, ou seja, a proceder a análise das formas da língua e suas implicações na configuração do sentido do texto.

 

2. O texto jornalístico

 

Dentre a variedade de textos que devem ser colocados ao alcance do aluno, uma modalidade afigura-se indispensável para levá-lo a adquirir o almejado posicionamento crítico e a exercer,  conscientemente, sua cidadania: o texto jornalístico. Isso porque a informação fornecida pelo jornal é, antes de tudo, um fato discursivo, e não a mera reprodução de acontecimentos e opiniões. O jornal não fala a respeito do mundo, mas procede à construção da realidade no texto e através dele. Em outras palavras, o jornal constrói, além da opinião pública, seu próprio referente (os sujeitos - personagens das notícias, e o objeto - informação propriamente dita).

Essa realidade construída é, por sua vez, igualmente condicionada pelo imaginário coletivo, de forma que o jornal acaba por representar "o lugar simbólico em que se dão a conhecer as representações coletivas" (Mosca, 1993, p. 261). Nele estão presentes a opinião do proprietário do jornal (daí a afirmação de Rossi, 1985 de que não existe liberdade de imprensa, mas "liberdade de empresa"), o conjunto de forças que permitem mantê-lo em circulação, e outras vozes presentes na sociedade.

Nesse contexto, a credibilidade do leitor no jornal de sua preferência é requisito básico para que ele lhe delegue a incumbência de opinar, e se instaure entre ambos uma relação de cumplicidade. Assim, segundo Frias Filho (1984), a curiosidade pública diz todos os dias aos jornais: "quero que o jornal me diga o que é verdade e o que não é, o que está certo e o que está  errado, porque a idéia de que não existe verdade nem certo é intolerável para mim e não posso conviver com ela". Em troca, o leitor exige do jornal qualidades como ética, independência, imparcialidade, que o veículo, prontamente, dá a impressão de ter.

Embora não seja tarefa fácil para um jornal levar os leitores a tomarem atitudes concretas, quer por sugestão quer por outro meio, ele é capaz de, eficientemente, criar no espírito do público o clima necessário para o efeito que pretende. E, mesmo que o leitor tencione resguardar sua decisão, as imagens segundo as quais ele conduz seus julgamentos são levadas a sua mente, em grande parte, pelo jornal que costuma ler.

Dessa forma, o jornal exerce uma função política, através da utilização de dispositivos sutis como a apresentação, em tom aparentemente imparcial, de fatos positivos ou negativos a respeito de idéias, de partidos ou de indivíduos; através da ordenação hierárquica das notícias; através da supressão de uma matéria ou de sua inserção truncada; através da escolha do trecho de um discurso a ser relatado e da forma como se dá esse relato, enfim, através da valorização ou do menosprezo de fatos.

No entanto, é importante enfatizar que o texto não é um produto acabado; sua construção se completa no momento da recepção, ou seja, a reflexão do leitor é uma forma de argumentação que o leva a posicionar-se, a determinar se deve ou não dar crédito àquilo que lê. Nesse aspecto, a afinidade entre a posição ideológica do jornal e a do leitor é fundamental na atribuição de valores que poderão vir a ser compartilhados ou não, dependendo da maneira particular de cada um ver o mundo.

Se o leitor participa da construção do sentido do texto, utilizando-se tanto dos valores ideológicos do grupo a que pertence como de suas experiências de vida, conclui-se que a subjetividade é uma característica inerente a toda atividade de linguagem. Essa subjetividade não se restringe à recepção, mas está presente na produção de toda construção discursiva, realizada sempre por um sujeito interessado em alcançar determinados fins.

Assim, não existem textos objetivos, mas estratégias discursivas que constroem tanto o efeito de objetividade como o de subjetividade. Cabe ao leitor, então, fazer uma leitura da subjetividade implícita e da ideologia presentes no texto, a partir do reconhecimento do conjunto de opções estilísticas utilizado pelo locutor e da própria organização do material verbal.

 

3. O trabalho com jornais em uma oficina de leitura

A abordagem de textos jornalísticos aqui proposta se dá sob a forma de oficinas pedagógicas, a materialização, na pedagogia das línguas, de concepções teóricas de linguagem e de aprendizagem como o dialogismo bakhtiniano, o socioconstrutivismo de Vigotsky e o Método Natural de Freinet.

Essa proposta metodológica coloca-se como uma opção à fragmentação e à dispersão de conteúdos, que, ao longo do tempo, só conseguiram proporcionar à criança aquilo que Freinet (1985) denomina migalhas de conhecimento; essa proposta busca privilegiar atividades em que os educandos possam chegar a conclusões a partir da observações de fatos e situações e da formulação de hipóteses; ela abre espaço à criatividade, à curiosidade, à capacidade de observação dos alunos, cabendo ao professor agir como orientador, organizando questionamentos e aprofundando conhecimentos.

A oficina apresenta-se, assim, como uma opção para “a quebra da rotina escolar em ambientes mais espontâneos e mais ativos, mais próximos da realidade extra-escolar” (Bordini, 1998), propicia a colaboração, já que os trabalhos são realizados em grupo, a construção do próprio conhecimento, de forma lúdica, e a interdisciplinaridade tão enfatizada pelas novas propostas curriculares. 

No que diz respeito especificamente à análise do texto jornalístico, o trabalho com oficinas propicia aos participantes a identificação e a classificação dessa modalidade textual, o reconhecimento da pretensa imparcialidade e objetividade jornalísticas, a apreensão do significado dos verbos delocutivos, a identificação de marcas lingüísticas de subjetividade tais como a adjetivação e o aspeamento.

A primeira exigência para uma abordagem do texto jornalístico sob o formato de oficina é o contato dos alunos com jornais variados, em busca da identificação de suas características físicas: sua apresentação gráfica, a identificação de manchetes e de “leads”, bem como a subdivisão dos assuntos abordados em  cadernos, seções, artigos, notícias e reportagens.

Após o estudo dessas características mais superficiais, será interessante que o professor programe uma visita dos estudantes à sede de um jornal da cidade, onde, além de observarem as instalações e o funcionamento das máquinas, terão oportunidade de entrevistar os editores do jornal, buscando respostas a questionamentos como: quem faz o jornal e a quem ele é dirigido? qual a função de um jornal? qual sua matéria prima? qual o perfil daquele periódico em especial? como são divididas as funções das pessoas envolvidas na feitura do jornal? qual a modalidade lingüística nele empregada? há algum conteúdo censurado naquele jornal? o jornal se considera formador de opinião? como e em que seções a opinião é deliberadamente expressa no jornal? As respostas a essas questões serão amplamente discutidas em sala de aula e confrontadas tanto com o próprio jornal quanto, nos casos de jornais de maior envergadura,  com seu manual de redação. Só então, o aluno passará à análise do conteúdo do jornal, propriamente.

 

4.  Tipologia de textos jornalísticos: princípios de composição e  características

 

Concluída a fase de identificação de características e objetivos do jornal, é hora de trabalhar, na oficina de leitura, a percepção das especificidades tipológicas dos variados textos que o constituem, tais como: chamadas de primeira página, editoriais, artigos opinativos, notícias, reportagens e entrevistas. Cada um desses tipos de texto será  caracterizado a seguir.

 

4.1. A primeira página

 

A análise do jornal terá início na primeira página, a que busca o público mais diferenciado. Por pretender ser representativa de todas as editorias, estampando assuntos que interessem a todos os leitores, essa página acaba tornando-se fragmentada e heterogênea. Assim é que podem aparecer na primeira página, lado a lado, a suspensão de um acordo do presidente da República com os usineiros, as cartas de amor recebidas por um ministro de Estado, o reajuste das prestações da casa própria, comentários sobre uma atriz de destaque da TV, as idiossincrasias de uma delegada de polícia, uma greve de metalúrgicos e a boa fase de certos times de futebol. Com efeito, a primeira página é aquela que, segundo Frias Filho (1985), reúne a maior concentração demográfica de leitores, e, por isso, apresenta-se como local do embaraçamento contínuo da "leitura especialista" com a "leitura genérica".

Através dessa página, o jornal propõe-se orientar a visão do leitor, condensando grandes quantidades de informação proveniente de textos de fontes diferentes ou muito extensos, selecionando e suprimindo dados e, especialmente, hierarquizando os acontecimentos.

Considerando que os veículos de comunicação não apenas relatam fatos, mas participam efetivamente da produção da imagem que os leitores compõem da realidade, pode-se concordar com a afirmação de Suzuki Jr (1985) de que o jornalismo produz uma história, uma modalidade própria de conhecimento, uma verossimilhança. E a primeira página, por seu caráter heterogêneo, tem um papel fundamental na construção desse simulacro de realidade. Tanto isso é verdade que, como lembra o autor, quando se quer dar uma idéia do que ocorreu no mundo há vinte ou há  cinqüenta anos, é comum se reproduzir somente a capa de um grande jornal. Entretanto, o confronto da primeira página de jornais diferentes, com a mesma data, deixa claro que cada jornal narra a "sua" história.

Um outro aspecto da primeira página, que é importante ressaltar, refere-se à "maquiagem" esmerada a que é submetida, uma vez que ela é o espaço de sedução do leitor, e, simultaneamente, produto e propaganda do jornal. Dessa forma, o texto ali presente nem sempre corresponde a uma síntese do conteúdo desenvolvido nas páginas internas: não raras vezes a primeira página enfatiza aspectos que só de relance são abordados no interior do Jornal, chamando a atenção para o exótico, para o cômico, para o trágico ou para outro atributo que, de alguma forma, possa despertar o interesse do leitor.

Quanto ao estilo, o texto de primeira página - chamada, no jargão jornalístico - exige frases curtas, secas, substantivas, que dêem ao leitor uma idéia de completude, mas, ao mesmo tempo, o remetam para as páginas que trazem a cobertura extensiva, numa pretendida relação de intertextualidade, interna à edição de cada número do jornal.

 

4.2. O editorial

 

Outro tipo de texto que deve ser analisado em sala de aula é o Editorial, que, por representar o pensamento oficial do jornal como instituição, pode, legitimamente, na visão de Erbolato (1984), esclarecer, ilustrar, formar opiniões, induzir à ação e até mesmo entreter.

Na definição de Bond (1959), o editorial é "um ensaio curto, embebido do senso de oportunidade". Difere do ensaio propriamente dito, por não ter, em geral, "valor permanente", subordinando-se sua vida à dos fatos que o determinam. Sua fonte são os acontecimentos do dia no campo regional, nacional e internacional, de preferência os que tocam mais de perto seus leitores.

Marcelo Coelho, em um artigo publicado na própria Folha de S.Paulo em 24/04/92, em que comenta o lançamento do livro Meninas da Noite de Gilberto Dimenstein, afirma que os editoriais de jornal estabelecem um contraponto inevitável com a crueza das reportagens: enquanto a notícia apresenta secamente os fatos, de forma irresolvida e material, o editorial comenta, posiciona-se, contesta, interferindo sobre o absurdo que é homeopaticamente apresentado aos leitores todos os dias. Para ele, é como se, enquanto a manchete dissesse: "foi isso!", o editorial respondesse: "mas não pode ser!". Dessa forma, segundo o autor, o jornalismo estabelece uma relação particular com a transitividade dos fatos, representando um apelo para que as coisas mudem, para que não se resumam a ser simplesmente o que são.

Embora apresente traços estilísticos peculiares, a página editorial acompanha as tendências e o estilo próprio do jornal. Esse estilo pode ser equilibrado, denso ou leve, conforme a linha do veículo. Aconselham os especialistas que o editorial evite a ironia exagerada, a interrogação e a exclamação, e que seja estruturado de forma a apresentar concisamente a questão de que vai tratar, o desenvolvimento dos argumentos que o jornal defende, a refutação de opiniões contrárias e a conclusão que condensa a posição adotada pelo veículo.

 

4.3. A opinião

 

Todo jornal reserva seções ou páginas inteiras para artigos opinativos, alguns dos quais seguem o enfoque ditado pela linha editorial; outros, muitas vezes escritos em primeira pessoa,  expressam pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema, ficando sob a responsabilidade de quem os assina. Alguns jornais assinalam explicitamente que essas publicações obedecem ao propósito de estimular o debate dos problemas locais, nacionais e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Ainda dentro do espírito assumidamente opinativo, é comum o jornal apresentar uma ou mais charges relacionadas a um assunto do momento, bem como uma seção constituída por uma coletânea de frases de impacto, proferidas por personalidades em evidência. Em geral, não há nenhum comentário explícito sobre as frases, apenas a sua citação, com a informação do autor, da data e do contexto em que cada uma delas foi proferida. Entretanto, é perfeitamente possível depreender, através delas, mudanças de postura de uma mesma autoridade ou enfoques distintos sobre um mesmo assunto.

Os jornais costumam apresentar, igualmente, colunas constituídas de pequenas notas sobre os bastidores da política, cada uma delas com títulos bastante sugestivos. Relatam-se aí, em geral,  declarações inusitadas de personagens da política nacional a respeito de um opositor ou de um fato adverso, além de episódios inéditos, recentes ou não, envolvendo figuras do cenário político.

 

4.4. A notícia

 

Notícia é, segundo o Novo Manual de Redação do jornal Folha de S. Paulo (1992), "o fato comprovado, relevante e novo"(p.27). É tido como relevante o fato que pode gerar maiores conseqüências para o mundo, para a sociedade e para os leitores; é importante o fato que desperta curiosidade, ou aquele que é objeto de maior identificação entre o público leitor e a personagem ou a situação do ocorrido; é mais noticioso o fato mais inesperado e aquele que os poderosos têm interesse em ocultar. Dessa forma, segundo a mesma fonte (p. 35), são critérios elementares para definir a importância da notícia o ineditismo, a improbabilidade, o apelo, o interesse e a empatia.

Como "fragmentos de aparências que se manifestam por transformações, movimentos e enunciações" (Lage, 1982), as notícias excluem o invisível e o não verificável, bem como aquilo que representa continuidade, permanência.

Abordando as características da notícia, Lage (1985-b) a classifica como uma construção retórica referencial que trata das aparências do mundo; além disso, a notícia é axiomática, ou seja, afirma-se como verdadeira: não argumenta, não constrói silogismos, não conclui nem sustenta hipóteses. A única argumentação permitida na notícia é aquela reproduzida de outro texto (de um depoimento, por exemplo). Segundo o autor, ela não questiona, afirma; não contrapõe formulações contraditórias, embora possa apresentá-las; não investiga causas ou conseqüências, embora possa ser o resultado de uma investigação.

Ao tratar do caráter impessoal atribuído à notícia, o autor afirma que essa impessoalidade, nos meios de comunicação atuais, é apenas aparente. A notícia pode não refletir as crenças e perspectivas do indivíduo, como ocorria em um momento histórico anterior, mas, certamente, reflete as crenças e perspectivas da coletividade que a produz. Para ele, a melhor técnica apenas oculta preconceitos e pontos de vista do grupo social dominante.

Nessa mesma direção, Marcondes Filho (1986), recusa a qualquer jornal a função referencial pura. Para ele: 

Notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso a informação sofre um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo. Além do mais, ela é um meio de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. (p.12). 

Para esse autor, a objetividade plena é impossível, pois "a possibilidade de possuir a verdade é falsa e tende ao discurso dogmático" (p.14). Entretanto, apoiado em especialistas, ele propõe alguns parâmetros para a avaliação da seriedade e da objetividade jornalística. Tem essas características o jornal que não utiliza sofismas, discursos persuasivos ocultos, afirmações categóricas injustificadas; o jornal que difunde também versões discordantes daquela veiculada por ele; o jornal que deixa clara a postura ideológica que o leva à interpretação da notícia.

A reflexão sobre o assunto na oficina de leitura de jornais deve levar o aluno à percepção de que, na realidade, a inexistência de uma pura objetividade em jornalismo deve-se ao fato de que a própria escolha de um assunto, a redação de um texto e sua edição implicam tomadas de atitudes bastante subjetivas, influenciadas pelas posições pessoais, hábitos e emoções do jornalista. Esse aspecto é acentuado por Van Dijk (1989), para quem, além de assinalar a postura social do jornalista, a estrutura da notícia reflete, também, as condições institucionais dos jornais. Isto significa que os esquemas das notícias, seus temas, seus atores e seu estilo de representação ou de citação estão todos intimamente relacionados com os meios e as estratégias de produção. Da mesma forma, a seleção dos atores importantes nas notícias depende de seu poder político ou social, de sua acessibilidade ou de muitas outras condições sociopolíticas.(p.177)

Um outro importante aspecto a ser discutido nas oficinas de leitura é lembrado pelo mesmo  autor:  a própria produção de notícias consiste, em grande medida, numa forma de processamento do texto, já que, freqüentemente, o repórter toma conhecimento dos acontecimentos através de outros tipos de discurso, os chamados "textos-fonte", constituídos por informes de outros meios, mensagens transmitidas por telefax, boletins de imprensa, documentos, publicações, conversações telefônicas, entrevistas, etc. Além disso, os próprios acontecimentos das notícias são, muitas vezes, de natureza textual, tais como declarações de autoridades, debates no congresso, negociações, cartas, ou outras formas de discurso público envolvendo pessoas, organizações ou países. Evidentemente, em cada fase dessa cadeia textual, os acontecimentos são codificados e recodificados, sendo-lhes incorporadas as cognições de cada locutor ou instituição.

A inexistência de objetividade plena no jornalismo é, portanto, um fato, embora isso não desobrigue aquele que escreve de procurar manter uma atitude de distanciamento crítico em relação ao assunto e aos personagens de qualquer notícia. Conforme assevera o Novo Manual de Redação da Folha de S.Paulo, “é preciso ter em vista o alcance de uma objetividade possível”.

Embora, na grande maioria dos jornais, a manifestação de opinião esteja circunscrita, por norma, às colunas e aos artigos, admite-se no texto noticioso a análise e a interpretação. Estas não  são subjetivas e arbitrárias, mas procuram explicar o noticiário da maneira mais objetiva possível, e envolvem uma série de procedimentos como, entre outros, checagem de informações, pesquisa bibliográfica, entrevista com os envolvidos, contextualização do assunto, rigor técnico, cruzamento com observações de outros especialistas, estabelecimento de analogias e indicação de contradições que possam ser comprovadas no próprio texto.

Embora fatos sejam mais fortes que declarações, os grandes jornais reconhecem que as declarações textuais conferem credibilidade à informação, dando vivacidade à reportagem e ajudando o leitor a conhecer melhor a personagem da notícia. Recomendam, assim, que seu emprego seja reservado para declarações de grande impacto, ou por seu conteúdo, ou pelo seu caráter incomum e inesperado. A reprodução textual não necessita de ter uma equivalência termo a termo, permitindo-se suprimir trechos ou alterar a ordem do que foi dito, desde que o conteúdo seja respeitado.

A exatidão das informações é responsável pela construção da reputação do veículo e de sua relação com o leitor. Quanto a este aspecto, é evidente que, como detentor da palavra, o jornal respalda-se em uma credibilidade que pode chegar ao grau máximo na fé, sendo seu prestígio e a acentuação de sua autoridade decorrentes da tradição e do hábito. Mas o veículo não deve esquecer que o leitor não é um elemento passivo, mas um agente da construção do sentido daquilo que lê, cabendo-lhe aceitar ou questionar a informação ou a opinião a que é exposto.

Segundo Lage (1985-a), uma tática importante para o jornal construir uma relação de poder ancorada na confiança é fazer com que a verdade empírica das proposições mais facilmente verificáveis pelos leitores (as citações, por exemplo) contagie de credibilidade as proposições menos verificáveis. Conforme lembra o autor, é sempre mais fácil manipular informações remotas ou abstratas.

 

4.5. A Reportagem

 

Diferentemente da notícia, que trata necessariamente de fatos novos, a reportagem trata de assuntos que estão sempre disponíveis e podem ou não ser atualizados por um acontecimento (Lage, 1985-a). O ângulo sob o qual o levantamento do assunto deve ser realizado na reportagem é preestabelecido pela diretriz do jornal. A linguagem e o estilo são, nessa modalidade de texto, menos rígidos que os da notícia, variando conforme o público e o assunto, e a autoria é importante, já que sempre se admite nela alguma interpretação.

Os grandes jornais parecem considerar este gênero o produto fundamental da atividade jornalística, o que explica a tendência do jornalismo contemporâneo, detectada por Lage (1982), de transformar em reportagem todo fato programado. O autor aponta a existência de três variações de reportagens: as de investigação, em que se parte de um fato para revelar outros mais ou menos ocultos; as de interpretação, em que um conjunto de fatos é observado da perspectiva metodológica de uma dada ciência; e aquelas que, investindo na revelação de uma "praxis" humana não teorizada, buscam apreender a essência do fenômeno, aplicando técnicas literárias na construção das situações e episódios narrados.

Embora possa demandar, às vezes, semanas ou até meses de dedicação a uma só matéria, a reportagem apresenta a vantagem de ser capaz de reavivar assuntos, atualizando-os, e de prender a atenção do leitor, mesmo que ele já tenha conhecimento de pormenores divulgados.

 

4.6. A entrevista

 

Uma última forma de matéria noticiosa é a entrevista. Sob a forma de perguntas e respostas pode-se, segundo Lage (1985-a), tentar extrair do entrevistado informações que resultarão em notícia (entrevista noticiosa), levantar a opinião sobre o assunto pesquisado (entrevista de opinião), ou levantar aspectos biográficos do entrevistado (entrevista de ilustração).  O caráter do caderno em que a entrevista se insere é que determinará a modalidade mais oportuna.

Quanto à natureza das declarações colhidas em entrevista, os periódicos de envergadura costumam relatar ao leitor não apenas as declarações sérias, mas também aquelas feitas ao jornalista em tom de brincadeira, desde que sejam reveladoras da personalidade do entrevistado. Nesse caso, em geral, explica-se o contexto da declaração, deixando claro que se trata de afirmação jocosa. O procedimento também se aplica a lapsos do entrevistado e a declarações irônicas, já que  um ato falho, por exemplo, pode ser mais revelador que uma declaração pensada.

Todos esses dados mostram que a entrevista, enquanto produto apresentado pelo jornal, envolve um alto grau de participação do jornalista no enfoque que ele quer ver privilegiado, aspecto este que deve ser percebido pelos participantes da oficina de leitura  de jornais.

 

5. A linguagem jornalística

Além de observar aquilo que diz o jornal, a análise das diferentes composições textuais em sala de aula deve levar em conta a modalidade de língua empregada pelo jornal. A esse respeito, Lage (1982) afirma que a linguagem jornalística ideal é aquela que concilia comunicação eficiente e aceitação social, incorporando expressões coloquiais de criação recente, denominações transpostas de jargões científicos para designar novos objetos, e atualizações que se mostrem necessárias, concretizadas, por exemplo, em termos surgidos na televisão ou em expressões técnicas utilizadas por economistas.

Uma primeira análise da linguagem jornalística evidencia a presença do clichê, do lugar comum, da forma convencional, fato geralmente creditado à rapidez com que as notícias têm de ser publicadas, ao desejo de abarcar todos os assuntos, e à necessidade de permanente constituição de corpos de redatores e repórteres.

Entretanto, todo texto retrata intenções de seu locutor de, em maior ou menor grau e de formas variadas, marcar ou mascarar sua posição, de modo que nem sempre o leitor seja capaz de identificá-la. O engajamento do jornalista é indiciado por pistas verbais depreensíveis numa análise lingüístico-discursiva mais atenta. Além disso, seu posicionamento está presente também naquilo que não é dito, nas lacunas deixadas entre as informações e nas pistas, sutilmente indicadas ao leitor, sobre como preenchê-las.

Embora seja um lugar-comum que qualquer leitura deve considerar também o não dito, o implícito, o pressuposto, especial cuidado deve ser tomado, na realização da oficina de leitura, para não desprezar a materialidade específica do fato textual como ponto de partida para a ilação de conteúdos subentendidos. Não se pode esquecer, nesse sentido, que, se por um lado, a interpretação cabal de um discurso só é possível com a consideração dos elementos provenientes de atividades do sujeito e do contexto, por outro lado, o discurso é, como enfatiza Possenti (1988), uma entidade antes de mais nada lingüística (e não política, psicanalítica, etc.).

Numa tentativa de dar ao jornal uma feição de objetividade, os manuais de redação dos grandes periódicos costumam recomendar que o texto jornalístico seja exato, conciso, claro e direto, desenvolvendo-se por meio de encadeamentos lógicos, com linguagem de nível intermediário, aquela que utiliza as formas mais simples admitidas pela norma culta.

Pregam ainda esses manuais que se evite o uso de adjetivos, especialmente aqueles que implicam juízos de valor. Da mesma forma, os verbos delocutivos ou declarativos em textos noticiosos, deveriam ser usados apenas para introduzir ou finalizar falas dos personagens da notícia e não para qualificá-las ou para insinuar qualquer opinião a respeito delas. Assim, teoricamente, os jornais deveriam dar preferência ao emprego de verbos como dizer, declarar e afirmar, mais neutros e verdadeiramente indicadores da autoria de uma declaração, já que a utilização de outros verbos poderia conferir caráter positivo ou negativo às declarações reproduzidas. Evidentemente, tais recomendações ou não são integralmente seguidas ou são completamente ignoradas pelos diversos veículos, o que poderá ser avaliado na análise dos textos jornalísticos em sala de aula.

 

5.1. A adjetivação

 

A adjetivação é uma das marcas discursivas mais salientes do posicionamento do locutor-enunciador e de suas reações diante dos fatos. Evidentemente, o locutor pode privilegiar o emprego de adjetivos de cunho referencial, que lhe permitem distanciar-se um pouco mais dos discursos que relata, limitando intervenções subjetivas.

Por outro lado, o emprego de adjetivos avaliativos envolve inteiramente a pessoa do locutor, uma vez que eles se prestam a caracterizar, expressando atitudes de estabelecimento de valores. Segundo Mosca (1993, p. 267) "Adjetivar é assumir valores", é exercer uma atividade subjetiva. E o atributo ou especificação, em geral, não estão propriamente no ser a que o adjetivo se refere, mas na imagem que o sujeito dele faz.

Prestando-se para nomear qualidades não aparentes, para expor contradições e reações afetivas, e sugerir elementos do imaginário, os adjetivos avaliativos exercem uma função especial nos textos naturalmente opinativos como os artigos assinados e os editoriais. Por trazerem implícitos os padrões de valores do produtor do discurso, desempenham um importante papel na rede de relações do texto, entrelaçando-se quase sempre com outros processos retórico-argumentativos.

A adjetivação assume ainda importância maior quando o assunto tratado é do interesse direto e particular do jornal, como no caso do tema liberdade de imprensa; nessa situação, a intenção de envolvimento do leitor fica ainda mais evidente.

5.2. Os verbos delocutivos

Na leitura do texto jornalístico, em busca da revelação de sua subjetividade e de suas  intenções mostra-se particularmente importante o papel dos verbos que fazem referência à atividade delocutiva focalizada no discurso relatado. Conforme  Charolles (1988), com exceção de dizer, "aparentemente neutro", esses verbos veiculam sempre diversos pressupostos. Assim, ao afirmar-se que alguém revelou alguma coisa, incide-se sobre o valor de verdade do enunciado; repetir, replicar e concluir implicam uma posição cronológica posterior a dizer ou afirmar, enquanto reconhecer ou confessar incidem sobre o ponto de vista atribuído ao enunciador, no sentido de Ducrot (1984). A afirmação de que o outro ordenou ou suplicou revela uma hierarquia entre os personagens envolvidos no ato de fala.

Há, por outro lado, verbos que caracterizam a forma ou o tom em que se dá a fala, como sussurrar, murmurar, segredar, ciciar, cochichar; outros revelam os sentimentos, o estado de espírito, as emoções do locutor, como gemer, suspirar, lamentar-se, queixar-se, explodir, berrar, gritar. Estes últimos são os comumente chamados verbos sentiendi.

Para Hohenberg (1962), verbos e expressões como declarar e formalizar opinião são dotados de uma conotação especial e devem ser reservados para os casos em que o orador assume uma opinião oficial.

Leão (1973) relaciona os verbos de elocução às funções da linguagem. Para a autora, exclamar caracteriza fundamentalmente a exteriorização psíquica; pedir, suplicar, solicitar, que visam, prioritariamente, conseguir do alocutário que aja segundo os interesses do locutor, são conativos; dizer, menos argumentativo, desloca a ênfase para o assunto, exercendo basicamente uma função referencial, enquanto explicar chama a atenção para a própria língua, numa função metalingüística. Segundo essa classificação, os verbos perguntar e responder seriam fáticos, o que parece discutível, uma vez que, ao se perguntar alguma coisa pode-se estar de fato interessado na resposta em si, e não na busca de formas de entabular ou continuar uma conversa. Da mesma forma, responder, pode implicar, efetivamente, o desejo de dar uma informação ou prestar um esclarecimento.

Thompson e Yiyun (1991) consideram, na análise dos verbos delocutivos, a denotação e o potencial avaliativo. Segundo a denotação, os verbos empregados em relatos de fala podem referir-se basicamente a processos nos quais a expressão verbal é um componente obrigatório, como escrever, apontar, nomear, negar, sublinhar (textuais); podem referir-se primariamente a processos mentais expressos pelo locutor citado, como acreditar, pensar, focalizar, considerar e preferir (mentais); ou podem fazer referência a processos físicos ou mentais que são parte do trabalho de pesquisa e das descrições deles feita pelo locutor citado, como medir, calcular, quantificar, obter e achar (de pesquisa).

Quanto ao potencial avaliativo dos verbos de elocução, os autores consideram, separadamente, a instância do autor, a instância do escritor e a interpretação do escritor. A primeira compreende a atitude do autor (locutor citado) diante da validade da informação ou opinião reportada. Essa atitude, quando positiva, é expressa por verbos como aceitar, enfatizar invocar, notar, apontar subscrever; quando negativa, por verbos como atacar, rejeitar, questionar, divergir, objetar, opor, desafiar, repudiar; e, quando neutra, é expressa por verbos como examinar, avaliar, focalizar, citar, ocupar-se com.

Na instância do escritor (locutor citante), este pode optar por retratar o autor como apresentando uma informação verdadeira ou uma opinião correta, através de verbos e locuções como conhecer, trazer à luz, demonstrar, identificar, provar, reconhecer, substanciar; pode também optar por retratar o autor como apresentando uma falsa informação ou uma opinião incorreta, pela utilização de verbos como ignorar, confundir, desconsiderar, trair, abusar. Finalmente, o locutor citante pode preferir não dar um sinal claro de sua atitude diante da informação/opinião do autor, através de verbos como avançar, acreditar, clamar, examinar, generalizar, propor, reter, utilizar.

Pode-se concluir, assim, que os verbos delocutivos não têm como única função a apresentação pura e simples do discurso citado, mas são igualmente indiciadores dos sentimentos e das concepções do jornalista diante daquilo que cita e diante das atitudes ou estados psicológicos do locutor citado.

 5.3. Os tempos verbais

 

Além do tipo de verbo delocutivo, também o tempo verbal pode ser indicador da opinião do jornalista sobre o discurso que relata, sobre seu autor ou sobre ambos.

Segundo Lage (1982), é o passado "o tempo da notícia", uma vez que o jornal noticia fatos de um passado recente. Quando se faz referência a anúncios, o verbo deve vir no futuro do presente simples, ou no "presente usado pelo futuro".

A propósito de tempos verbais, é oportuno lembrar a distinção feita por Weinrich (1968) entre relato e comentário. No primeiro, a postura do locutor é relaxada, descomprometida e envia ao alocutário sinais de que se espera atitude semelhante por parte dele. Os interlocutores, no mundo relatado, comportam-se mais como espectadores que como personagens ativos.

Já no caso do comentário, o locutor assume uma atitude tensa, porque seu discurso aborda assuntos que o tocam diretamente. Aqui, o locutor deseja transformar seu discurso num fragmento de ação, visando provocar reações, interferir no mundo e modificá-lo. Nesse plano de discurso, o locutor emite sinais de que a alocução não deve ser recebida com displicência, mas que ela exige do alocutário uma resposta, verbal ou não verbal.

Segundo o autor, o mundo narrado e o mundo comentado são caracterizados, sobretudo, pelo tempo verbal empregado na alocução. É evidente que tempo verbal não tem, nessa acepção, nenhuma relação com o Tempo, mas equivale ao "comportamento do falante articulado nos dois grupos temporais do mundo comentado e do mundo narrado".(Weinrich, 1968, p.201).

Dessa forma, os tempos do mundo narrado (pretérito perfeito simples, pretérito imperfeito, pretérito mais que perfeito e futuro do pretérito) e do mundo comentado (presente, pretérito perfeito composto, futuro do presente, futuro do presente composto) funcionam como sinais lingüísticos de que o conteúdo da comunicação em que se inserem deve ser entendido respectivamente como um relato ou como um comentário.

Existe, em geral, uma concordância entre os tempos da narrativa e os tempos do relato. Quando essa concordância é rompida, tem-se, segundo Weinrich, um caso de metáfora temporal, ou seja: a presença imprevista de um tempo estranho em um determinado grupo de tempos que confere ao texto um matiz expressivo diferenciado.

Muitas vezes, num texto jornalístico nitidamente comentador, construído à base do presente e do futuro do presente, intercala-se um futuro do pretérito, tempo do mundo narrado que rompe com o padrão dos tempos instaurados no texto. O futuro do pretérito assume, então, um valor expressivo de precaução que, imprimindo ao discurso um tom de descomprometimento por parte do autor em relação ao fato relatado, limita a veracidade da notícia. Em outras palavras, a informação em que ocorre essa metáfora temporal, embora não chegue ao extremo de ser invalidada, fica com sua validez muito limitada, uma vez que o jornalista não se responsabiliza pela sua exatidão, assumindo o discurso apenas como retransmissor.

Dessa forma, parece inquestionável a importância do tempo verbal como um aspecto gramatical capaz de fornecer indicações sobre as intenções do locutor citante e, conseqüentemente, sobre a interpretação que se deve dar ao texto.

 

5.4. O aspeamento

 

É evidente que as aspas desempenham um importante papel, na busca pela fidelidade no relato. Através delas, o jornalista rompe a aparente homogeneidade do texto, nele inserindo a voz do outro, o que dá autenticidade a seu próprio discurso. Essa representação "literal" e "integral" da fala do outro costuma ser reservada para afirmações de um certo impacto, seja por seu conteúdo, seja por sua forma inusitada.

Muito mais comum, entretanto, é o jornalista, utilizando-se de aspas, tanto nas variantes do discurso direto como nas do discurso indireto, abrir um espaço - o das relações semântico-argumentativas - entre a porção posta em destaque pelas aspas e a seqüência textual onde essa porção se insere,  deixando à mostra sua atitude face ao dito alheio.

Dessa forma, aspear uma palavra é, simultaneamente, mencioná-la e fazer um comentário implícito, emitir um julgamento sobre o que ela representa e sobre a fonte que a utiliza, seja com nota de ironia, discordância, seja de respeito, fidelidade, seja mesmo de desconfiança ou descomprometimento.

O aspeamento não tem, assim, um estatuto de neutralidade, de estrita delimitação do discurso-fonte, mas implica uma tomada estratégica de posição face ao discurso relatado; revela intenções variadas do locutor que cita, quer no sentido de resguardar-se, protegendo-se de polêmicas porque "foi o outro quem o disse", quer no sentido inverso de expor-se a elas, pelo enquadramento do pronunciamento alheio numa seqüência textual-argumentativa que lhe é sutil ou declaradamente divergente ou convergente.

Nesse contexto, uma importante tarefa dos alunos na oficina de leitura é, após verificar que o emprego de aspas não confere ao texto o caráter de objetividade que o jornal parece julgar inerente a elas, procurar identificar a conotação assumida em cada uma das ocorrências dessa marca de heterogeneidade e de alteridade.

Dentre as conotações que o aspeamento pode assumir (ridicularização da declaração relatada ou de seu autor, autenticação do discurso citante, demonstração do distanciamento do locutor ante a fala relatada) vale destacar aqui a conotação de condescendência de que trata Authier (1980).

Para melhor entender esta última modalidade conotativa das aspas, é necessário recorrer à distinção feita por Ducrot (1984) entre "locutor enquanto tal" e "locutor enquanto ser do mundo" (pp.187-188), ambos  seres do discurso que se diferenciam pelo fato de o primeiro ser o responsável unicamente pela enunciação, e o segundo possuir essa propriedade, entre outras, como  pessoa completa que é. Assim é que as aspas de condescendência refletem uma preocupação quase paternalista do "locutor enquanto ser do mundo" para com o alocutário, e essa preocupação é expressa pelo "locutor enquanto tal".

As aspas de condescendência marcam a presença do termo no discurso-fonte, definem o estranhamento que o termo desperta nos locutores citantes e transferem ao leitor a responsabilidade pela sua interpretação e pela avaliação de sua adequação. Podem manifestar-se de duas maneiras: numa delas, o locutor marca termos técnicos, que ele considera fora do alcance ou de difícil compreensão para o alocutário. Na outra, o locutor substitui os termos técnicos por outros menos específicos, e aspeia-os, para demonstrar que, apesar de considerados impróprios, sua utilização tem o intuito de facilitar a compreensão do interlocutor. Esse tipo de aspeamento pode também evidenciar a falta de termo mais apropriado, sendo freqüentemente utilizado em neologismos. Nesse caso, pode conter em si uma espécie de justificativa por não se encontrar termo mais apropriado, ou, mesmo, uma espécie de chamamento da atenção do leitor para o inusitado da forma e a intenção de conotação semântica subjacente à criação verbal em pauta.

Em todos esses casos, pode ser observado o estatuto diferenciado que assume a palavra aspeada face às demais: ela é vista como deslocada, como imprópria, como conveniente a um outro discurso, em oposição às palavras não aspeadas, tidas como condutoras da informação, como normais e, de fato, apropriadas.

Essa "impropriedade", segundo Authier (1980), não deve ser vista como um defeito, uma imperfeição, pois, se é certo que a palavra aspeada está "à margem" de uma fala em curso, não é menos certo que essa margem é constitutiva do próprio discurso. Para a autora, as aspas são como que o eco do reencontro, que se dá sob a forma de interação ou de imbricação do discurso com o seu exterior; e é na relação com esse exterior que o discurso se constrói.

 

6. Concluindo o trabalho

 

Após o reconhecimento das características responsáveis pela intencionalidade marcada no extrato lingüístico-discursivo dos textos, quer sob forma de indícios verbais (pistas deixadas no desenvolvimento do texto) quer como comentários bastante explícitos, definidores do posicionamento do autor, a oficina de leitura pode passar a efetuar atividades comparativas entre jornais.

Essa comparação, conforme sugere Faria (1991), deve envolver um  assunto de repercussão local, regional ou nacional em jornais de diferentes linhas editoriais e abordar aspectos como o destaque dado ao assunto (a página em que aparece, a manchete, o número de linhas dedicado à matéria, a presença ou a ausência de fotos), a presença de artigos opinativos ou de editoriais sobre o tema e a diretriz adotada em cada um desses artigos opinativos. As conclusões podem originar debates e textos como cartas a cada um dos periódicos analisados e artigos de contestação ou de anuência.  

O resultado de todo o trabalho realizado deve ser a confirmação para os alunos de que a informação veiculada pelo jornal é um fato discursivo indicador do posicionamento do veículo ante os acontecimentos e de que a “verdade” dos textos jornalísticos deve ser buscada não apenas na concordância entre o narrado e o ocorrido, mas também na seleção e ordenação de vocábulos, acontecimentos e declarações, nas lacunas deixadas entre as informações e nas indicações sugeridas sobre a forma de preenchê-las.

Isso ocorre porque, embora afirme perseguir o máximo de objetividade possível, o jornal reflete constantemente a presença humana, a participação, o engajamento, indiciados de maneiras variadas, fato que confirma a lição proposta pelo jornalista Marcelo Leite, para quem “a distinção entre notícia e opinião é fundamental para se entender um jornal, mas às vezes a mistura das duas coisas permite compreendê-lo ainda melhor”. (Folha de S.Paulo, 9/4/95, p. 1-6).

Para os alunos que vierem a participar da experiência, o saldo será certamente positivo, uma vez que eles passarão a encarar os textos como objetos culturais, e, portanto, manipuláveis; os professores, por seu turno, terão feito das aulas de Língua Portuguesa espaço para a leitura e a escrita, em sentido profundo, contribuindo, dessa forma,  para a formação de cidadãos conscientes de seu papel histórico.

 

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